Ucrânia: olhar para além dos cem dias da agressão

O presidente Zelensky tem sublinhado que a guerra só acabará com recurso à diplomacia. Tem razão. Precisa de construir um acordo de paz com o agressor. Não será fácil. O acordo não poderá premiar o que tem sido uma clara violação da lei internacional, uma sucessão de crimes de guerra, de destruição e de atos de pilhagem. Este é o grande dilema, que faz de qualquer processo de mediação um quebra-cabeças. Neste cenário, um acordo será apenas possível entre uma posição de força e outra de fraqueza. Esta é uma conclusão dramática. Leva à procura do esmagamento ou da humilhação do adversário.

À partida, dir-se-ia que o prolongamento das hostilidades avantaja o lado mais forte. A coragem e a determinação dos ucranianos não seriam suficientes para responder eficazmente a uma ofensiva prolongada, conduzida com uma brutalidade desmedida.

É nesse contexto que as ajudas externas são fundamentais. Nem os EUA nem os países da UE podem deixar a Rússia de Vladimir Putin derrotar a Ucrânia. Se isso acontecesse, a paz, a segurança e a democracia na Europa ficariam gravemente comprometidas. Agora seria a Ucrânia, amanhã poderia ser a Polónia, a Lituânia, ou qualquer outro país do nosso espaço geopolítico. Ou continuaríamos, simplesmente, a viver lado a lado com um vizinho sempre pronto para nos causar dano.

Assim, cada bloco deve assistir a Ucrânia com os meios disponíveis. Do lado americano, foi agora decidido fornecer um arsenal de armas de tecnologia avançada e de longo alcance. As admoestações vindas de Moscovo, no seguimento dessa decisão de Joe Biden, encontraram resposta no texto que o presidente assinou esta terça-feira no New York Times: não se anda à procura de uma guerra entre a NATO e a Rússia. Trata-se, isso sim, de permitir aos ucranianos dispor dos meios indispensáveis para o exercício do seu direito de legítima defesa.

Do lado europeu, o pacote de sanções aprovado esta semana no Conselho Europeu deve ser visto de modo positivo. Vai tão longe quanto o consenso o permite. O essencial é que seja finalizado sem mais demoras - a Hungria continua a levantar obstáculos - e aplicado a um ritmo acelerado.

Mais importante ainda é o acordo entre a UE e o Reino Unido que torna impossível aos navios que transportem produtos petrolíferos russos assegurar a sua carga nas praças de Londres e do resto da Europa. Sem esses contratos de seguro, as grandes companhias marítimas deixam de ter condições para operar ao serviço das exportações russas. A experiência com o Irão mostra que uma medida desse tipo reduz acentuadamente a exportação do petróleo. Esta é certamente uma das sanções até agora com maior impacto.

Como já várias vezes referi, as sanções têm fundamentalmente três objetivos. Expressar uma condenação política. Reduzir a capacidade financeira que sustenta a máquina de guerra. E desconectar a Federação Russa das economias mais desenvolvidas, para realçar que há uma conexão entre o respeito pela lei internacional e a participação nos mercados globais.

As sanções deverão fazer parte de uma futura negociação de normalização das relações. Mas só poderão ser levantadas quando o Kremlin deixar de ser visto pela Europa e pelos seus aliados como um regime imprevisível e ameaçador.

Para além das armas e das sanções, será necessário continuar a apoiar financeiramente a Ucrânia. Este apoio é um assunto potencialmente delicado, numa altura de crescimento económico relativamente anémico na Europa e quando o aumento do custo de vida começa a ser uma preocupação maior. Mas é o preço que temos de pagar para manter a nossa estabilidade e segurança. Trata-se de um esforço que vai durar algum tempo. Mais tarde, quando se entrar na fase de negociações, os mediadores terão de incluir na agenda a questão das compensações de guerra e do financiamento da reconstrução da Ucrânia.

Na realidade, neste 100.º dia da agressão, estamos perante uma situação bem complexa. Os cenários futuros, sobretudo para as próximas três semanas, devem incluir várias preocupações. Mas, para já, os desafios prioritários são quatro: reforçar de imediato a capacidade de defesa de Ucrânia; aprofundar o isolamento e debilitar as finanças públicas russas; manter a unidade entre nós; e continuar a insistir na diplomacia da paz.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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