Naturalmente que o Natal na Ucrânia não tem a mesma expressão e dimensão que no Ocidente. A celebração de Natal de acordo com os padrões do calendário Juliano acontecia no dia 7 de janeiro e era marcado por um jejum que começava no dia 28 de janeiro..Todavia, logo após o começo da guerra na Ucrânia a Igreja Ortodoxa ucraniana declarou a sua independência de Moscovo e adotou a data de 25 de Dezembro para as celebrações natalícias. De acordo com o calendário gregoriano, 25 de Dezembro transformou-se em mais um símbolo de proximidade da Ucrânia ao Ocidente..Sociologicamente, o Natal da Ucrânia será um desafio de titã como, facilmente, se percebe. Mas os ucranianos estão a mostrar ao mundo que são um povo singular e corajoso a enfrentar as dificuldades. Ultrapassam as adversidades com criatividade, imaginação e um assinalável espírito de sacrifício e unidade nacional. A sua coragem e determinação face à barbárie russa na tentativa de ocupação do seu país será, seguramente, um dos acontecimentos mundiais no encerramento do ano de 2022..Uma das razões centrais das vitórias ucranianas sobre o exército russo reside na unidade do seu povo com os soldados ucranianos..A prova dessa unidade do povo ucraniano com as suas Forças Armadas, está no estudo feito sobre o modo como vão comprar prendas no Natal. 60 por cento vão comprar produtos que beneficiem os soldados ucranianos a empresas que já não estejam representadas na Rússia..Será difícil transparecer num texto como será o Natal na Ucrânia. Famílias destroçadas. Pais separados de filhos. Mães ansiosas pelos filhos nas frentes da guerra. Um país destruído, sem eletricidade, sem água, sem gás, sem aquecimento. Idosos lançados para caves frias para se protegerem dos bombardeamentos russos..Um Natal num país onde já morreram ou ficaram feridas 942 crianças. Crianças mortas, feridas, separadas dos pais. Um país de crianças com escolas, creches, orfanatos, destruídos. Com o sistema de educação, praticamente, paralisado, onde a ONG "Smart Education" fornece uma ferramenta de ensino online, manifestamente, insuficiente. Um Natal de morte, de frio, de falta dos mais elementares bens de sobrevivência. Com uma permanente ameaça da chegada de mais mísseis russos ou drones de origem iraniana transportando, consigo, mais morte e mais destruição..Um Natal num país com hospitais e maternidades destruídas. Desde o início da guerra cerca de 600 instalações médicas foram destruídas, sendo que 101 hospitais estão totalmente arrasados, não sendo possível a sua reconstrução. Na contabilidade da barbárie russa na Ucrânia há que inscrever também a destruição de 200 ambulâncias e 450 farmácias..Perante a incapacidade do seu exército no terreno militar, Putin ataca alvos civis. Destrói infraestruturas de produção de energia, sistemas de distribuição de gás e água, deixando uma população de sete milhões de ucranianos á mercê de um dos mais severos e implacáveis Invernos..Apesar das adversidades descritas atrás, retenho na memória a imagem de uma reportagem de um canal internacional de televisão onde, ladeado por uma gigantesca árvore de Natal iluminada com as cores azul e amarelo da bandeira ucraniana, em Kiev, junto á Catedral de Santa Sofia, um casal jovem com uma criança de tenra idade ao colo sorri, enquanto a mãe manifesta o desejo de que um dia, mais tarde, aquela criança " não se lembre da guerra"..Oxalá o desejo da jovem mãe se concretize. Porque nós não podemos esquecer. A Humanidade não pode esquecer nunca mais o sofrimento causado pela guerra na Ucrânia. Nem esquecer, nem perdoar aos seus responsáveis que, um dia, terão de responder em Haia, na barra do Tribunal Internacional de Crimes de Guerra..Jornalista