"Tunisinos de Bem", quem diria!

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A Tunísia continua a viver dias animados, na sequência do "golpe de força" do Presidente (PR) Kais Saied, de julho de 2021. O que anima agora o debate, são as declarações do PR Saied a propósito das "hordas de migrantes sub-saharianos clandestinos, fonte da criminalidade crescente na Tunísia (...) assunto que deverá ser resolvido rapidamente". Leituras múltiplas:

Em primeiro, os três mil que se manifestaram no sábado passado em Tunes, não o fizeram exactamente preocupados com a crescente onda de violência anti-africana em África, mas antes com a sinalização de um adquirido da revolução de 2011 inegociável. O direito à manifestação! Com um acumular de poderes crescente por parte do PR, desde o Verão de 2021, os tunisinos manifestam-se essencialmente para garantirem que podem continuar a manifestar-se. No fundo, vão picando o ponto a cada fim-de-semana, debaixo do guarda-chuva do principal sindicato do país, a UGTT, o interlocutor da população junto do PR. O que a UGTT está a fazer e parece que bem, é a de manter este "pacifismo" na recusa do diálogo por parte de Kais Saied, dizendo-lhe, "nem penses que te vais armar em Ben Ali e proibir o direito à manifestação!"

Em segundo, o PR Kais Saied está a utilizar a questão migratória como "cortina de fumo" para justificar a crescente crise social e económica que o país atravessa. É nesse sentido que o discurso identitário se torna oficial e popularucho! Saied começou a falar em "tunisialidade" e na necessidade de defesa desta. A "pureza tunisina" ameaçada por África em áfrica, segundo um complot migratório e comandado a partir do exterior. O "tunisino de bem" fica assim definido, é essencialmente branco, heterossexual, tem bigode e trabalha num banco!

A resposta mais séria e institucional a este crescendo de discurso racista e actos violentos contra migrantes, desde a aprovação da Nova Constituição de julho de 2022, aprovada com 70% de abstenção no referendo, foi o Banco Mundial, que suspendeu o seu principal programa de partenariado na Tunísia.

Leitura:

Todas as instituições internacionais estão "pelos cabelos" com Kais Saied! Todas as instituições internacionais foram benevolentes com o golpe de julho de 2021, que consideraram "de força" e não "de Estado"! Todas as instituições internacionais deram o benefício da dúvida a Kais Saied, nós incluídos através do que fomos aqui analisando e publicando! Todos acreditámos que após os ajustes o PR voltasse ao diálogo, voltasse ao construtivo "com um queijo numa mão e uma faca na outra". Apesar das manifestações da UGTT o "Robocop de Tunes" continua inflexível. Porquê? Porque voltar ao diálogo significará reconhecer a derrota, porque a acumulação de Poder torna-se injustificável quando não há bons resultados para apresentar, porque dialogar significará negociar e os detentores de poderes absolutos só podem ceder e Kais Saied insiste em não ceder. Quem não cedeu uma vez mais foi o Banco Mundial, que deixa a porta entreaberta ao esclarecer, "os projectos financiados continuam financiados e os projectos em curso continuam em curso", numa tentativa de sinalizar ao homem que tudo é negociável e que nada é eterno, incluindo os "Secretários Perpétuos"!


Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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