Tudo sobre a minha confusão

Ainda não sei bem o que penso do que se passou no Teatro São Luiz - porque há tanta coisa para pensar. Das exclusões que não vemos ou sentimos àquilo que definimos como violência, passando pelo perigo muito real de a afirmação de identidades e seus direitos nos fechar em caixas cegas - aquelas de onde viemos.

Transfake. A palavra entrou subitamente na atualidade portuguesa, depois de na noite de quinta-feira, no teatro São Luiz, a peça Tudo sobre a minha mãe - baseada no argumento do filme homónimo de Almodóvar - ser interrompida por uma pessoa do público que se dirigiu ao palco e, apresentando-se como atriz transgénero (trans), ordenou ao ator André Patrício, em cena como Lola (uma das personagens trans da peça), que o abandonasse, gritando "transfake".

O pano caiu pouco depois, separando o elenco de quem o interpelava, mas ninguém impediu a interpelante de prosseguir o seu discurso: estava ali a protestar por ter sido contratada uma pessoa não trans para representar uma personagem trans. Explicando que, por não conseguir trabalho como atriz, é forçada a prostituir-se para sobreviver.

O vídeo passou nas TV e corre nas redes sociais, pelo que muitos dos que me leem sabem o que se passou a seguir: o elenco, a começar pela atriz Maria João Luís, veio à boca de cena, tentando dialogar com quem lhes interrompera o trabalho. E no fim a atriz trans Gaya de Medeiros, que na peça dá corpo à personagem Agrado, num discurso de punho no ar, proclamou: "Espero que hoje este ato da Keyla Brasil, uma artista que está na prostituição, entre na história de Portugal, para que se entenda a importância desses corpos ocuparem estes espaços para contarem as suas histórias. Isto não é contra o ator e o diretor. Isto é uma denúncia histórica (...)."

A discussão pública iniciou-se de imediato, primeiro nas redes sociais e depois nos media, e logo na sexta-feira a produção decidiu substituir, na personagem Lola, o ator André Patrício (que tem outros papéis na peça) por uma atriz trans, Maria João Vaz.

Há tanta coisa para refletir sobre tudo isto, tanta perplexidade para elencar, que um texto de opinião não chega - até porque, mesmo entre os que defendem o ato de Keyla Brasil e se congratulam com o seu resultado, há variadas visões sobre o que ela fez, como entre os que rejeitam este tipo de ação e lamentam que a produção tenha cedido ao protesto.

Começo então por esta palavra, transfake. O que quer isto dizer, sobretudo quando designando um ator em personagem? Se fake quer dizer falso, a ideia é a de uma falsificação. Aquela que - informa-nos em artigo no Público Dusty Whistles, ativista trans - ocorre quando "artistas cisgénero participam na exclusão de trabalhadores culturais trans através da apropriação de papéis trans."

(Antes de mais: a expressão cisgénero, ou "cis", designa pessoas cuja identidade de género coincide com a que lhe foi atribuída à nascença, em função das suas características morfológicas. As pessoas cis podem ser heterossexuais ou homossexuais, como as trans).

A expressão transfake é aliás associada por Dusty Whistles ao blackface, exprimindo a ideia de que há um "mascarar de", numa estereotipação ridicularizadora, quando alguém que não é trans "faz de" trans numa peça ou filme, como quando alguém não negro pinta a cara para "fazer de" negro (como sucedeu bastas vezes no teatro e cinema).

Isso mesmo afirma no seu artigo: "O casting transfake ridiculariza as pessoas trans, com a suposição, mesmo que não intencional, de que não somos mais do que uma série de adereços amovíveis (...)." Sabe que está a pisar em terreno movediço, pelo que acrescenta: "Não há nada de errado com o drag, que tem o seu próprio lugar e importância na história da revolta queer, mas colocar uma pessoa cis em drag para desempenhar o papel de uma pessoa trans é um escárnio da experiência trans."

Pois. Drag é precisamente a palavra que se usa para designar um "vestir de", um "fazer de" exagerado, performático, em que alguém usa roupa, próteses (capilares ou outras) e maquilhagem para "parecer" ou "representar" outro género. Historicamente, o drag - tanto "masculino" como "feminino" - tem de facto um lugar na luta pelo derrube dos muros de género, usando, paradoxalmente, os estereótipos de género contra esses mesmos estereótipos. A questão é como a assunção dessa liberdade que foi sendo assim conquistada resulta, para Dusty, em que "uma pessoa cis em drag para desempenhar o papel de uma pessoa trans é um escárnio da experiência trans." Escárnio? Por?

Entendamo-nos: a discriminação e exclusão das pessoas trans, mulheres e homens, é brutal e violentíssima, e o desespero e revolta que conduzem a ações como a que vimos no São Luiz são totalmente compreensíveis; a violência desse protesto deve acordar-nos para a que não vemos nem sentimos e que quem o protagonizou sofre todos os dias.

O principal dos meus problemas - tenho vários - com a ação em si é que, para além da funda injustiça feita ao ator cruelmente tratado como usurpador (e ao resto do elenco, que estava ali, frise-se, a trabalhar, e numa peça ativista), não me faz qualquer sentido o decreto, como li no Instagram dos Fado Bicha, ativistas trans na génese do protesto, de que "atores cis só podem representar personagens cis".

Tudo a favor de que atrizes e atores trans tenham muito mais acesso a trabalho, como as pessoas trans em geral (como todas as pessoas excluídas e discriminadas), e que esta ação sirva para que se consciencialize a necessidade de maior atenção, de maior procura nesse sentido. Mas que ideia é esta, também de um dos membros do Fado Bicha, de que "alguém não trans representar uma personagem trans é ridicularizar a nossa experiência"? Ou, como escreve Dusty: "O casting transfake nega os nossos mundos internos, perspetivas, narrativas pessoais e a nossa própria luta".

Cada narrativa pessoal sendo única, cada mundo interno sendo isso mesmo, interno e no limite impartilhável, que quer isto dizer? Que cada um só pode representar-se a si próprio, ser ator de si mesmo? E se falarmos de grupos identitários, que é do que Dusty e outros ativistas trans estão a falar, onde é que isso nos leva?

Como mulher, a minha experiência de nascer mulher sendo vista como mulher e (des)tratada como mulher toda a vida não é a mesma, nunca será a mesma, que a de uma mulher trans - por mais que ela empatize comigo. Significa que devo considerar "escárnio" se uma atriz trans interpretar uma personagem de mulher cis, porque a experiência dela não é nem pode ser a minha? E deverei sentir-me ridicularizada como mulher, ou sentir a minha luta feminista deslegitimada, ao ver mulheres trans levarem a estereotipação do que é suposto ser "o feminino" até ao caricatural, em vez de perceber que é a forma de, como diz Agrado, num dos monólogos mais belos do cinema, "serem tanto mais autênticas quanto mais se aproximam daquilo que sonharam para si"?

Como escreveu Gonçalo Diniz, o primeiro presidente da ILGA-Portugal, no Público (Sair do armário e entrar numa gaveta), "a afirmação da "diferença" parece que perdeu a função e está a abrir um abismo cada vez mais difícil de contornar. (...) Quando é que a estratégia da visibilidade deixou de ser um instrumento para a igualdade e passou a ser uma bandeira divisória? Quando é que um movimento que lutava para uma maior inclusão passou a valorizar uma postura dicotómica, quase tribal, na sua exclusividade?"

Onde está o esforço de empatia e de aceitação que era suposto, é suposto, ser esta luta tão longa pela igualdade, pelo direito a cada um ser quem é? Onde está a ideia de que somos todos o mesmo, sendo o que quisermos e sonharmos? Onde está o amor que foi o princípio e deveria ser o fim de tudo?

Tudo sobre a minha mãe é sobre isso mesmo: amor. O amor que liga pessoas tão diferentes, ou aparentemente tão diferentes, que as leva a acolher-se, a proteger-se, a defender-se, a consolar-se. Era tão claro na altura, em 1999. Por que deixou de ser?

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