Tiago Moreira de Sá (TMS) – meu amigo, antigo professor e actual colega de faculdade – surge a corporizar em análises recentes uma segunda geração de justificação intelectual e ideológica do partido Chega. A primeira, foi protagonizada por Diogo Pacheco de Amorim (DPA), mesmo que produzida originalmente para a Nova Democracia de Manuel Monteiro. Sobre DPA, TMS tem a clara vantagem de elaboração e trabalho académico rigoroso, conhecimento da literatura relevante, e uma superior capacidade de contornar escolhos de anti cosmopolitismo..No entanto, há que apontar ao esforço de TMS o que me parece um lapso primordial no aproveitamento indevido do conservadorismo – ideologia política e filosófica na qual me reconheço – com o qual o eurodeputado do Chega quer rebatizar, e realizar um aggiornamento do conteúdo partidário protagonizado pelas ideias de André Ventura..É sobre esta posição intelectual que me debato..Analisando o artigo “É direita conservadora, não é extrema-direita”, conseguem-se descortinar três elementos principais na construção argumentativa de TMS. Sobre os mesmos, apresento o meu enquadramento e interpretação..1. Existem “outros” que não deixam o Chega ser respeitável.Para TMS, a perniciosa conotação de extrema-direita que o partido de Ventura mantém, deve-se a um conjunto de malévolos intérpretes, da comunicação social à academia, que condicionam o pensamento. Mas será assim?.Sem ser exaustivo, vejamos que quanto à liberdade de imprensa, no ranking de 2024 da World Press Freedom, Portugal ocupa o 7º lugar num conjunto de 180 países e num relatório sobre liberdade académica relativo a 2024, o V-Dem coloca Portugal em 14º lugar entre 179 países. Segundo a Mediamonitor, Ventura foi o político português com mais tempo de antena nos telejornais das 3 televisões generalistas no mês das legislativas de 2024, e nos espaços de análise e debate político das mesmas televisões, surge agora um representante do Chega, a partilhar tempo com pares do PSD e PS. Não me parecem assim plausíveis os apontamentos de TMS sobre cordões sanitários sociais, com os quais inicia e sustenta a sua opinião..2. Identificar o Chega com o conservadorismo, pelo abandono da “verdadeira” direita..Neste ponto, sugere-se a leitura dos próprios documentos do partido Chega. No seu manifesto político fundador, lê-se “O CHEGA assume-se como um partido nacional, conservador, liberal e personalista”, e no ponto III da 1ª parte do seu Programa Político (2021), dedicada à matriz política, diz-se que a mesma é “direita, Conservador, Reformista, Liberal e Nacionalista”. Afinal o Chega é conservador? Ou também é conservador? E como concilia as insanáveis diferenças entre ideologias a que dá guarida? Parece-me antes existir uma tentativa de Ventura em conseguir linha e bingo em todas as famílias ideológicas que habitam a direita, à laia de Prezzolini, quando escrevia que “a direita é o conjunto das direitas, as que lembramos e as que esquecemos”..Se não encontramos coerência no próprio Chega, tentemos a literatura académica. Aqui a qualificação do posicionamento do partido parece-me consensual, com nuances descritivas, próprias da diversidade das Ciências Sociais. No caso nacional, de forma breve – e seguramente incompleta – Marchi (2019) considera-o no âmbito dos “partidos populistas da nova direita radical”, Manucci (2020), como “direita radical e populista”, Mariana Mendes (2022), na “direita radical”, e Pimenta, Gonçalves e Zuquete (2023),.destacam a “irregularidade populista” de Ventura. Já em diferentes momentos, Lisi, Costa Pinto e José Filipe Pinto (2024), rotulam-no respectivamente como “direita radical”, “partido populista de direita radical” e “populismo identitário”. Não há, que eu conheça, qualquer tipologia conservadora como variável ou hipótese principal de estudo associada a um trabalho académico revisto por pares sobre o Chega. Para todos os efeitos, na academia – que eu e o Tiago frequentamos e estimamos – o Chega é um partido de direita radical..3. A consolidação de um novo conteúdo intelectual para o Chega.É neste ponto que TMS faz o seu “tour de force”, que embora bem construído intelectualmente, é nas palavras de Mark Twain, “manifestamente exagerado”, por dois motivos..O primeiro, com a introdução e recurso a Roger Scruton, como figura de autoridade da filosofia conservadora. Não poderia estar mais de acordo com TMS – afinal, sou conservador! – só que não podemos utilizar o britânico de forma instrumental. Não só porque Scruton nunca falou de “direita conservadora” – apenas “conservadorismo” – mas porque, em 2017, na New Criterion, escrevia referindo-se a Trump, Marine Le Pen, Wilders e Farage, “não são democratas, mas sim demagogos (…) agitadores que despertam os sentimentos irrefletidos da multidão”, complementando em 2018 no NY Times, o estraçalhar de Trump, criticando a sua “visão distorcida” sobre sociedade e Estado, as suas políticas económicas proteccionistas, e o facto de ser “um produto do declínio cultural (…) que perdeu a noção de que existe uma civilização acima dos seus negócios e dos seus tweets”. Ademais, se Scruton serve – e bem – de bandeira do pensamento conservador, é bom recordar como aprofundou conhecimentos linguísticos em árabe e hindi para estudar os respectivos textos religiosos, e como elogiava a causa ambiental na “essência do conservadorismo”. Permito-me não imaginar a biografia de Scruton a servir de exemplo numa escola de Verão do Chega..O segundo, com a elencagem de um conjunto de três “contratos” – tão do agrado de qualquer conservador – respectivamente, das “gerações”, “direitos e deveres” e “representação”. Sobre estes nada a contestar, pois além de bem delineados por TMS, constam da tradição intelectual de pensadores conservadores de Scruton a Kekes, passando por Santayana, Ortega y Gassett, Voegelin, Oakeshott ou Kirk..Mas o que TMS me parece negligenciar é que se todos estes conservadores concordavam em rechaçar projectos igualitários e utópico-idealistas de esquerda, aplicavam a mesma bitola e advertência contra insurgências à direita, rejeitando populistas, radicais e extremistas que habitam esta nossa franja do espectro político. Qualquer destes intelectuais conservadores, reside no campo da democracia liberal, da contenção verbal na disputa política, da recusa da demagogia, da preferência por argumentos racionais e técnicos na construção de reformas graduais, do respeito pelas instituições, e, sobretudo, admiradores da diferença, como contraponto à igualdade. Valores e princípios que considero antitéticos ao que julgo tem marcado o percurso e comportamento do Chega na vida política nacional..Por estes motivos – e por ser conservador – sei que o Chega pode querer ser muita coisa, tem todo o direito de ser o que quiser, mas convém que não diga ser, o que, naturalmente, não é. Mesmo que muitos dos seus integrantes, entre os quais TMS, o sejam.