Tudo igual, tudo diferente

Pela primeira vez desde o início desta pandemia, estou convicta que o fim está aí. O fim da pandemia, entenda-se!

É certo que o número de infeções por Covid-19 tem mantido uma tendência crescente desde o final do mês de setembro, mas é preciso analisar no que isso se traduz, efetivamente.

O surgimento de uma nova variante, ainda que sem se conhecer, verdadeiramente, a sua real gravidade, levou ao soar dos alarmes e ao regresso de medidas restritivas ao funcionamento das atividades ligadas ao Turismo e à circulação das pessoas.

Do alto da minha assumida ignorância em termos de conhecimento científico - que assumo - uma coisa eu sei: a gravidade das medidas que nos são impostas devem ser proporcionais à gravidade da situação pandémica. E de acordo com vários e reputados especialistas, a situação que hoje se vive em Portugal é de tal forma distinta e distante da realidade de 2020, que deve ter também um tratamento diferente.

89% da população portuguesa está hoje vacinada, ao mesmo tempo que continua a assumir um comportamento responsável ao nível das medidas de proteção, o que tem levado a que o número de óbitos e de internamentos graves tenha decrescido substancialmente quando comparado com o mesmo período no ano passado, apesar do surgimento de uma nova variante e do aumento da transmissibilidade da doença.

Esta situação afigura-se, por isso, perfeitamente gerível, e apenas exige que se mantenha, sim, uma vigilância rigorosa, mas não que se tomem decisões baseadas em traumas do passado, pensando na situação ocorrida no Natal de 2020 e no "trágico" janeiro de 2021.

Numa fase em que o Alojamento Turístico e a Restauração e Bebidas encarava o período das festas com muito otimismo, eis que são impostas novas medidas restritivas, com o regresso do certificado digital para a restauração e alojamento turístico, teste negativo obrigatório para bares e discotecas e restrições à circulação das pessoas, com exigência de teste negativo para todos os voos que cheguem a Portugal. Se em relação aos certificados não se sentem constrangimentos assinaláveis, dado que a maioria da população o detém, em relação aos testes as dificuldades têm sido muitas, dada a dificuldade em aceder aos mesmos.

Além destas medidas decide-se, de forma cientificamente questionável (como consideram alguns especialistas), condicionar o pleno funcionamento do país na semana de 2 a 9 de janeiro 2022, obrigando ao teletrabalho e ao encerramento de bares e discotecas.

E pouco depois do anúncio das medidas, ainda ouvimos que poderão ser implementadas restrições mais duras, isto ao mesmo tempo que aqui ao lado, na vizinha Espanha, se considera que não há necessidade de se implementar outras medidas adicionais, sendo suficiente a vacinação e as regras básicas de proteção, mesmo com a variante Ómicron, facto que nos coloca numa preocupante posição de desvantagem em termos competitivos enquanto destino turístico.

Como já referi, não tenho conhecimentos científicos que me permitam pôr em causa as medidas que são implementadas. Mas ouvindo quem os tem, ouvindo a ciência e tendo em conta os factos de hoje (essencialmente os factos científicos), não posso deixar de apelar à tranquilidade e à confiança, sempre acompanhadas, obviamente, por apurado sentido de responsabilidade.

Este "confinamento" veio comprometer e defraudar as expectativas dos agentes económicos que legitimamente foram criadas, espalhando o medo e instalando um clima de desconfiança, que é desproporcional face aos objetivos que se querem atingir. Faz-me lembrar uma citação atribuída a Confúcio sobre o "uso de canhões para matar mosquitos", numa clara advertência sobre o quanto é prejudicial aplicar meios desproporcionais aos problemas que queremos resolver.

Confesso que tudo isto me deixa com um amargo de boca, depois do comportamento exemplar da população portuguesa que massivamente aderiu à vacinação, na esperança de que esse ato significasse uma maior normalidade, o que seria verdade se a realidade fosse, ela própria, a matriz de risco.


Secretária-geral da AHRESP

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