Trump vai ficar com a Gronelândia?

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Na manhã de 3 de janeiro passado, o presidente Donald Trump descreveu, num telefonema para a Fox News, a forma como uma força especial dos Estados Unidos da América raptou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e a mulher, Cília Flores. Todo contente com o êxito, a eficácia e a rapidez da intervenção, contou: “Assisti como se estivesse a ver um programa de televisão.”

Isto impressionou-me: durante o rapto, as tropas norte-americanas mataram cerca de 40 pessoas, algumas delas civis. E esta resposta de Trump, se por um lado tenta descrever o ambiente da sala montada com ecrãs, onde ele, assessores e generais supervisionaram a operação militar, por outro lado revela também - pela forma efusiva como narrou a situação - a indiferença com que foi assistindo, nesses monitores, a uma sequência de assassinatos… Será que, durante aquelas 2 horas e 28 minutos, Trump celebrava cada vez que via cair um venezuelano?…

Esta desumanização do inimigo é particularmente contraditória quando é supostamente em nome dos Direitos Humanos que os Estados Unidos e a União Europeia perseguem, há anos, o regime de Maduro. E essa hipocrisia foi particularmente notável na reação da União Europeia e de Portugal à operação militar desencadeada por Trump (ao menos, este fugiu a essa hipocrisia e disse claramente que o que quer é controlar o petróleo do país).

Bruxelas pediu “calma e contenção”, recordou a Carta da ONU e a soberania dos Estados - mas evitou a palavra que usou noutras crises: condenação. E fê-lo, ainda por cima, sublinhando que “Maduro não tem legitimidade” e que a UE está “em contacto estreito” com Washington.

Esta escolha de linguagem não é neutra. É, na prática, a normalização de um princípio perigoso: a legalidade internacional passa a depender de quem executa o ato e de quem é o alvo. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o Conselho Europeu foi taxativo: “Condenamos nos termos mais fortes possíveis” uma agressão “ilegal” e uma “violação grosseira do direito internacional”. Que diferença!

Portugal foi ainda mais complacente. O Governo “tomou nota” das garantias (quais?) de Donald Trump e valorizou o “papel” dos EUA numa transição “estável” e “inclusiva”. O ministro Paulo Rangel recusou-se a pronunciar sobre a violação do direito internacional e chegou a falar em “aspetos benignos” da intervenção. Que servil!

Também os candidatos presidenciais André Ventura, Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes reagiram num tom de pura (às vezes incomodada, concedo) subordinação à Casa Branca. Que tristeza!

Isto não é apenas um problema ético. A UE e Portugal abrem assim espaço para que outros, amanhã, justifiquem operações semelhantes no seu perímetro estratégico - do Báltico ao Mediterrâneo. E pagam ainda um custo externo, pois perdem credibilidade junto do chamado Sul Global, exatamente quando precisam deles enquanto parceiros para comércio, energia e diplomacia.

Uma política externa adulta começaria pelo óbvio: o direito internacional ou vale para todos, ou deixa de valer para qualquer um. Se Bruxelas e Lisboa conseguem falar “sem hesitações” quando o infrator é um adversário, também devem conseguir fazê-lo quando o infrator é um aliado. Caso contrário, não é prudência: é dependência - e, no fim, é também vulnerabilidade, como se verá se, receio bem, depois de fazerem voz grossa, acabarem por entregar a Gronelândia a Trump.

Jornalista

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