Apesar do Acordo Mercosul ter sido assinado no passado dia 17, o assunto não está encerrado e não é tempo de deitar a toalha ao chão.A proposta que se faz é directa e tem três componentes:1) suspender a decisão de fazer entrar em vigor provisoriamente o Acordo Mercosul;2) pedir aos parlamentos nacionais que se pronunciem sobre o Acordo no seu conjunto, seja através do processo de apreciação da sua ratificação, seja utilizando outro tipo de procedimento legal de pronúncia que esteja previsto nas legislações nacionais; e...3) não avançar com o processo de regulamentação ou aplicação das suas regras ou normas até que esse pronunciamento esteja concluído.Suscitando a intervenção dos parlamentos nacionais espera-se que a avaliação do Acordo possa ser feita a uma escala mais próxima da realidade sobre a qual os seus impactos se vão fazer sentir. Ou seja, permite-se que de uma forma mais próxima da realidade sejam expostas as consequências profundamente negativas do Mercosul no sector agrícola mas também noutras áreas e sectores produtivos nacionais.A Comissão Europeia sabe que o discurso sobre as vantagens e benefícios do Mercosul não resiste a esse teste do algodão. Foi por isso que subtraiu a aprovação do Mercosul à apreciação dos parlamentos nacionais e montou um artifício jurídico para forçar a sua entrada em vigor, separando o acordo comercial do Tratado em si.Se a Comissão Europeia estivesse tão certa das vantagens e benefícios do Mercosul certamente não via problema em que se fizesse o escrutínio. A verdade é que esse discurso sobre o Mercosul é um discurso falso.O Mercosul é um acordo que beneficia largamente os grupos económicos e as multinacionais, a começar pelo agro-negócio mas estendendo-se também às áreas da indústria e dos serviços.É um acordo com impactos negativos evidentes para a grande maioria dos trabalhadores, dos pequenos e médios agricultores, do tecido produtivo, sobretudo para países como Portugal.É um acordo que sacrifica a soberania económica, a produção nacional e o emprego e que põe os pequenos e médios produtores, que têm a sua actividade dirigida ao mercado interno, a pagar a factura da abertura dos mercados da América Latina aos grupos económicos e multinacionais que dele vão beneficiar.Entrando em vigor, o Mercosul irá expor os pequenos e médios produtores agrícolas a uma concorrência em condições claramente desfavoráveis, pondo em risco a sobrevivência de milhares de explorações agrícolas familiares, fragilizando os rendimentos dos agricultores e conduzindo ao abandono acelerado da produção, agravando a dependência alimentar.Suspendendo a entrada em vigor provisória do acordo comercial travam-se, ainda que apenas momentaneamente, esses impactos negativos do Mercosul. Suscitando a intervenção dos parlamentos nacionais abre-se a porta à possibilidade de derrotar definitivamente o Acordo e as suas nefastas consequências.Esse desfecho não será certo. Será preciso ainda travar a batalha no plano nacional para que isso aconteça. Mas, por esta via, abre-se uma porta de esperança ao futuro da agricultura familiar e dos pequenos e médios produtores. Eurodeputado.Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico