Todo o poder aos novos sovietes

Como é do conhecimento geral, as contas de Donald Trump, no Facebook e no Twitter, continuam suspensas. As administrações destas duas empresas deliberaram e acharam que as publicações do agora ex-presidente dos Estados Unidos incitavam à violência e debitavam muitas mentiras.

Não será preciso ser particularmente sagaz para perceber que os gestores destas redes sociais só prescindiram deste importante cliente depois de ser certo que ele ia deixar de ser presidente dos Estados Unidos.

Isso chegaria para desconfiarmos do suposto compromisso com a verdade destes indivíduos ou de qualquer vontade de defender valores que não seja ganhar mais uns milhões. Aliás, não será preciso puxar muito pela memória nem este jornal inteiro bastaria para dar exemplos de que não só a verdade para estas empresas pouco importa como os atropelos éticos são constantes.

Se em tese todas as empresas se devem guiar por práticas que sigam princípios éticos em que, claro está, se inclui não mentir e não divulgar mentiras, sabemos que essa qualidade é tão mais respeitada quanto maior for o poder coercivo das autoridades - e convém lembrar que no caso das democracias essas são as representantes do povo. Ou seja, ou o Estado impõe regras ou a vontade de realizar lucros sobrepõe-se a quase tudo. É uma visão pessimista sobre os homens e sobre o capitalismo? Talvez, mas é o que a história nos ensinou. Não, não há uma mão invisível para a ética empresarial.

Então quem regula as redes sociais e o que há para regular? Ninguém e nada. Não são órgãos de comunicação social - não sendo assim regulados pelas entidades do setor - e o produto que têm para vender são conteúdos produzidos por pessoas e organizações a que não têm qualquer ligação e que publicam ou não em função do lucro.

Ou seja, temos umas empresas com fundos ilimitados, sem qualquer controlo e que decidem, em grande parte, quem tem voz ou não, o que é verdade e mentira, quem pode anunciar e o quê. Acresce esse pequeno detalhe de saberem tudo sobre os seus clientes. Ou seja, além de venderem o que lhes é cedido gratuitamente, vendem também as informações que têm sobre nós, e nunca ninguém soube tanto sobre todos os aspetos da nossa vida como essas empresas (acrescento Amazons e Googles).

Este poder, nunca antes alcançado por empresas privadas, é tão grande que põe em causa, também como nunca, o poder político. O too big to fail de instituições financeiras que condicionava (e ainda condiciona) os Estados é uma brincadeira comparado com esta, já não tão nova, realidade.

A globalização tirou muitos milhões de pessoas da miséria, mas concentrou um poder extraordinário em meia dúzia de empresas que de facto governam o mundo.

O controlo dos mercados onde operam (e estão em cada vez mais) é absoluto. A sua dimensão é tão grande que qualquer possível concorrente é rapidamente destruído ou absorvido. De facto, já não há mercado nenhum, é na prática impossível concorrer com essas empresas.

O sonho do governo mundial foi atingido, mas revelou-se um pesadelo. Não somos governados por ninguém que lute pelo bem comum, o interesse deste governo é só e apenas o lucro das empresas de que são donos.

Teremos de prescindir do excelente serviço da Amazon, da possibilidade de saber sobre a vida de quem gostamos ou de partilhar opiniões através de redes sociais como o Facebook ou o Twitter? Não sei, provavelmente. O que de certeza absoluta não podemos fazer é aceitar bovinamente que condicionem a nossa forma de pensar, que nos controlem todos os nossos passos e, sobretudo, não podemos entregar os nossos destinos a quem não elegemos.

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