Thatcher morreu, Reagan também e o capitalismo não se sente nada bem

O pós-liberalismo da direita começou em muitos lugares ao mesmo tempo, mas foi nos Estados Unidos de Donald Trump que foi mais evidente. Apesar da preferência por reduzir impostos dos maiores contribuintes, a administração Trump nunca foi entusiasta das grandes empresas e do mercado livre, que associava à globalização e à deslocalização e, consequentemente, às desgraças da classe média-baixa americana, os left behind. Orbán acredita que entre Soros, os grandes grupos de comunicação social e as elites de Bruxelas há um conluio antinacionalista que quer acabar com a sua e com todas as soberanias, em nome de uma suposta ordem global. No Reino Unido, Boris Johnson é absolutamente diferente de Trump, mas procura em parte o mesmo eleitorado e promete-lhe mais ou menos o mesmo: protegê-lo de um mundo competitivo que torna algumas indústrias, profissões e regiões obsoletas. Essa é, aliás, a sua contradição insanável: o pressuposto do Brexit é tudo menos um Reino Unido open to the world. Ou, se for, necessitará de muita política social para compensar o que prometeu. Na Polónia, a democratização e a integração europeia, em vez de sustentar os valores tradicionais, exigem um pluralismo adversário de uma visão ultraconservadora e soberanista que vence eleições. E os exemplos podiam continuar.

O que estes tipos de direitas, profundamente diferentes entre si, têm em comum é que esconjuram o seu passado, detestam o presente e procuram responder a quem mais desconfia do futuro. Em vez de se apresentarem como herdeiras do pós-Guerra Fria e da vitória no Muro de Berlim, de invocarem a enorme prosperidade global do final do século passado e exibirem o progresso e a inovação como obras suas, estas direitas repudiam a herança, querem representar os reacionários contra os conservadores, moderados por disposição, e apresentam o antielitismo como programa político essencial. No meio de tudo isto, a defesa das virtudes da cooperação entre conservadorismo e liberalismo fica praticamente deserta. Precisamente quando é mais necessária.

As consequências da globalização nos países ocidentais e a agenda da resposta às alterações climáticas já tinham vindo a legitimar políticas crescentemente intervencionistas. A pandemia fez o resto. Acelerou. A pretexto de uma situação excecional, em que o Estado é o único que pode e deve intervir para evitar o colapso das comunidades, conclui-se que um Estado maior, com mais prestações e potencialmente omnipresente é indispensável. E tem, claro, de ser pago.

A brutal despesa pública, sobretudo dos países que podiam, para responder ao impacto económico da pandemia, por um lado e, ao mesmo tempo, o enorme pacote de resposta às alterações climáticas, que a Comissão Europeia apresentou a semana passada - uma política económica pensada a partir do centro, uma revolução industrial desenhada - chegam acompanhadas de um quase consenso europeu e americano sobre a necessidade de obter mais receita para os Estados. Daí o acordo em curso entre Estados Unidos e União Europeia, e na OCDE, para cobrar mais impostos. A benefício das maiores economias, não nos equivoquemos.

Tudo isto acontece quando a política alemã está em transformação, com a saída de Merkel e o provável regresso dos Verdes ao poder, o partido republicano continua refém de Trump, e os líderes europeus em alta, Macron e Draghi, são intervencionistas e protecionistas.

É este estado e coisas que explica que alguma direita represente hoje, ao mesmo tempo, reacionários e eleitores tradicionais da esquerda socialista, que o ambiente e as políticas identitárias sejam a marca distintiva da esquerda mais vocal, e que quase nenhum líder ocidental fale em nome de menos intervenção do Estado e mais liberdade económica. Se Ronald Reagan ou Margaret Thatcher fossem vivos, dificilmente teriam em quem votar.

Consultor em assuntos europeus

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