Therese O'Malley usou uma frase bíblica como ponto de partida para falar da evolução do conceito de wilderness e de como a evolução do conceito nos Estados Unidos influenciou os jardins e as políticas de conservação na Europa..Como é habitual, existem dezenas de versões diferentes do versículo usado, mas é curioso que, inequivocamente, a citação bíblica invocada se refira um ermo deserto e uivante (ou em que os animais uivam) e a ideia mais corrente, quando se fala de wilderness, seja a de uma natureza exuberante, qualquer coisa como uma floresta equatorial..A forma como facilmente falamos paisagens selvagens, como as do oeste americano ou das grandes planícies, mas resistimos a incluí-las na ideia de wilderness mereceria uma outra conferência que, para este texto, não é fundamental..Therese O'Malley explicitamente lembrou que wilderness não queria dizer savage, citou mesmo Henry David Thoreau para ilustrar a ideia de uma natureza benigna, em que os uivos estão mais na cabeça do caminhante, que no caminho que percorre..Centrando-se nos Estados Unidos, realçou que a wilderness estava a dois passos dos colonos do Novo Mundo, e que o ritmo de desflorestação nos séculos XVIII e XIX no leste dos EUA era impressionantemente alto, o que naturalmente criava condições para um sentimento de nostalgia pela natureza perdida muito presente em grande parte da sociedade..Tocqueville, quando visita os Estados Unidos por volta de 1830, deixa registada por escrito a sua vontade, que concretiza parcialmente numa viagem, de ser levado à fronteira da civilização para conhecer um mundo que tem a perfeita consciência de que será das últimas testemunhas..A esta nostalgia, e ao romantismo dominante na época, não será indiferente a criação do primeiro Parque Nacional do Mundo, em Yellowstone, nem a criação do grande parque público de Nova Iorque, Central Park, separados apenas por quinze anos, na segunda metade do século XIX e todos contemporâneos do nosso romântico Parque da Pena e da Real Quinta das Necessidades (Tapada das Necessidades)..Olmestead, o fundador da arquitetura paisagista nos EUA, e projetista de Central Park, envolveu-se ativamente no nascente movimento conservacionista que foi materializando a ideia de wilderness, tal como entendida na altura, e cuja influência no mundo inteiro é hoje reconhecida..O jardim, desde sempre uma representação ordenada do paraíso, que se opunha à natureza e ao caos, é contaminado pela ideia de wilderness, não no sentido de um deserto selvagem e indomável, mas no sentido de uma natureza exuberante benigna, que pode ser usada por qualquer pessoa, sem medo e sem o sentimento de fragilidade induzido por um meio hostil..Os jardins naturalistas, ou de estilo inglês, desenvolvidos em Inglaterra ao longo do século XVIII, e de que o Central Park nova-iorquino é ideologicamente tributário - tal como o relativamente recente parque da cidade no Porto - têm muito pouca relação com as atuais ideias de wilderness, isto é, de uma natureza que evolui com o mínimo de intervenção humana possível, procurando respeitar integralmente os processos naturais..É verdade que se pretende trazer a natureza para as cidades, ou respeitar as suas regras nas grandes propriedades rurais nas quais se aplica o desenho naturalista que caracteriza essa escola de intervenção na paisagem, mas a ideia base é moldar os processos naturais em função dos objetivos estéticos e funcionais definidos pelo dono da obra, e não recriar uma natureza pristina que nos escapa, ideia que caracteriza os movimentos associados que se reconhecem na designação de rewilding..A ideia de jardins que dão espaço a uma natureza ordenada, mas não formatada pela necessidade de ordem e simetria, é uma ideia que foi fermentando na Europa, e que o romantismo acarinha. E é uma ideia que se ramifica para incluir a wilderness no terreno muito fértil do mundo novo, provavelmente mais cedo e com raízes mais fundas que na Europa, fazendo parte de um conjunto alargado de trocas de ideias e de elementos materiais - como as plantas e os novos materiais - em que os jardins e parques, de um lado e do outro do Atlântico, desempenham um papel crucial de difusão.. Este texto responde a um pedido de Cristina Castel-Branco: assistir a uma conferência sobre o tema das transferências de conhecimentos nos jardins, nas paisagens e no planeta. Escrevi notas que não refletem o conteúdo da conferência, mas sim o que me chamou a atenção como arquiteto paisagista mas não especialista em história de arte dos jardins, nem em projeto e design, nem na função desta profissão no tempo novo a que chamam Antropoceno em que já estamos a viver.. Arquiteto paisagista