Terceira guerra 

Após novos indícios de que o vírus surgiu no laboratório em Wuhan, na China, o Facebook anunciou que não continuará a excluir as publicações que falem sobre a origem humana da covid-19. A sério? Estão à espera que agradeçamos? Podemos permitir que as redes sociais e outros meios de comunicação se transformem no Ministério da Verdade e sentenciem o que é falso ou não? Esta é a magna questão política (e jornalística) destes tempos. Mas vamos por partes.

Se a teoria de uma fuga do laboratório chinês se confirmar, estamos perante a maior operação de censura por parte dos novos e velhos media na história contemporânea. E tudo em nome do combate à desinformação. Como é que poderemos voltar a confiar nesses órgãos enquanto árbitros? Então o que ainda agora era rasurado porque chalupa, racista ("o vírus chinês") e supersticioso, o que era até esta semana banido e proibido, passou súbito a busca pela verdade? E que papel tem desempenhado uma parte importante da comunidade científica que condicionou os agentes noticiosos (sublinhe-se o financiamento dos EUA a diferentes laboratórios)? Se o começo em Wuhan na boca de Trump era demência, e na boca de Biden é legítimo, significa que jornalistas e cientistas respondem hoje apenas à agenda dos grandes interesses instalados? Sem qualquer pudor? À cara podre?

O que está aqui em causa não é uma teoria da conspiração (não se alega que a fuga do vírus foi intencional), e note-se que este filão da fulcral investigação sobre a origem do SARS-CoV-2 pode até estar errada (os sintomas são idênticos aos causados por outros vírus respiratórios e a forma de se provar a sua presença noutros países terá que ser através de análises a bancos de sangue e verificação de prevalências de anticorpos). Ou seja, como não sabemos de onde vem este coronavírus, temos que investigar as diferentes hipóteses e assim orientar estratégias, até para gerir melhor (e prevenir) futuras pandemias. Não podemos é permitir e viver neste ambiente de censura e de pensamento único, veneno mortal para qualquer democracia que precisa de dúvida, interpelação e debate como de pão para a boca.

O facto de, afinal, ser válido discutir a proveniência humana da covid levanta questões magnas geopolíticas (desde logo o poder da China e a confiança que podemos depositar nas suas experiências científicas e na sua comunicação de dados), mas remete, sobretudo, para o definhamento das democracias ocidentais. Há uns anos que começaram a surgir os "verificadores de factos" , arautos da verdade que justificam a sua acção como protecção das populações contra a desinformação. Mas o que se tem verificado é que muitos destes fact checkers apenas salivam à voz do dono, obedecem em genuflexão a grandes interesses económicos e que a luta contra as fake news frequentemente não passa de uma máscara, de um disfarce para um controlo perverso dos cidadãos, do seu acesso livre aos dados e à reflexão crítica.

Informação é Poder, sempre se disse, mas jamais foi tão decisivo como nos actuais tempos digitais. Coabitar com notícias falsas, distorções, narrativas enviesadas ou boatos é tarefa monstra e pedregosa, diária e perene. Mas abdicar da nossa liberdade de expressão e até da nossa liberdade de pensamento em nome de uma suposta segurança informativa será o nosso epitáfio. O futuro da política e do jornalismo mora neste combate. Está já aqui.

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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