Ter canal é essencial

Há, de Norte a Sul, empresários e gestores que criam riqueza sem estar de mão estendida no Terreiro do Paço, nem frequentar os restaurantes de Lisboa em jantaradas que se prolongam pela noite fora. E há, em Lisboa, gente capaz que faz o mesmo, como há um enorme exército com acesso à mesa de um banquete pago com impostos que chegam de todo o país. De Norte a Sul, há um povo que merecia melhor sorte e é preciso acrescentar que a má gestão dos dinheiros públicos não é apenas uma consequência do centralismo lisboeta, também existe no resto do país, só que na capital ganha outra dimensão.

Há um país real que tem de entrar nas discussões que fazemos sobre o nosso futuro colectivo mas, infelizmente, esse país real tem vindo a ser silenciado há décadas na comunicação social. Esse país quase só é notícia quando há uma desgraça. De pouco vale ter blocos informativos produzidos pelas redações do Porto, se depois os noticiários na televisão e na rádio são cópia dos que se fazem em Lisboa. As coisas só são diferentes, quando há verdadeira descentralização de poder. Na comunicação social, com relevância nacional, isso só acontece no Jornal de Notícias e no Porto Canal.

Mesmo quando achamos que o que dizem está errado, temos a obrigação de saber que é sempre preferível ouvir vozes diferentes que ter mais do mesmo em várias televisões, rádios e jornais dirigidos a partir da capital. Vem isto a propósito de uma grande mudança que é visível no Porto Canal e que significa uma editorialização acentuada que uma parte da elite nortenha entende ser o caminho necessário para combater o centralismo. Este pegar-o-touro-pelos-cornos tem respaldo numa vontade popular que em Lisboa é sempre apoucada, tratada como parola, reduzindo qualquer contestação a lógicas futebolísticas. Sempre que alguém aparece a apontar o dedo ao abuso de poder, os centralistas repetem em uníssono: "provincianos". A única coisa que respeitam são os seus próprios interesses.

Insisto, não tenho de concordar com toda a opinião que se faz no Porto Canal para saber que é absolutamente imprescindível que ela exista, daí que não perceba que os visados pela crítica mais do contra-argumentar, queiram desqualificar essa opinião por vir de onde vem. Agindo desta forma, estão apenas a reforçar a ideia de que é absolutamente necessário ter vozes livres, sem agenda ou mesmo com outras agendas, para evitar que o mundo todo ande em rebanho, embalado com falinhas mansas. O "Editorial", espaço de opinião apresentado como tal no Porto Canal, ganhou relevo nacional quando criticou a escolha de Pedro Adão e Silva como comissário para a celebração dos 50 anos do 25 de Abril. Defendi a escolha, e continuo a defendê-la. Mas prefiro que o Porto Canal tenha um editorial com o qual eu nunca concorde, sendo que até concordo umas vezes e outras não, que ficar do lado da barricada dos que defendem que essa opinião não deve ser escutada.

O Porto Canal não é um canal de clube, é um canal regional que produz conteúdos de informação de qualidade e que olha para realidades que Lisboa ignora. Sim, o accionista é um clube e o canal tem programação do clube, mas só por ignorância se pode pretender reduzir o trabalho jornalístico do Porto Canal a uma lógica clubística que está, por legítima opção, na génese da BTV ou da SportingTV. A Redacção do Porto Canal merece respeito e merece um aplauso pelo trabalho que faz.

Jornalista

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