Tenho uma grande constipação

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Tenho o dia perdido cheio de me assoar
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
(...)
Que grande constipação física!
Preciso de verdade e de aspirina

(Álvaro de Campos, Tenho uma grande constipação)

A redação deste jornal convida-me, amavelmente, a indicar a data das minhas férias destas crónicas e a comunicar quando estarei ausente das páginas do DN.

Por que razão declino este gentil convite e insisto em manter a minha presença semanal? Simplesmente por autodisciplina, porque necessito obrigar-me a escrever, mesmo que nada tenha para dizer. Ter de escrever pode fazer-nos encontrar a flor azul da poesia, mas quase sempre é apenas um ruminar à volta de encontros e desencontros, sem qualquer descoberta ou revelação. Não sei o que pensam os leitores, mas quando começo estes artigos parto sempre de um vazio de frases mastigadas.

E no entanto preciso disto, desta obrigação que me ocupa um dia por semana e me dá no fim um sentimento de libertação e alívio, quando o texto segue para o jornal e me parece que, pelo menos, não envergonha.

Acresce que finalmente chegou até mim o famoso covid. Eu estava já magoado com a indiferença dos sucessivos vírus e cheguei a conceber a ideia megalómana de que era dono de total imunidade. Não sou. Esta lição de humildade foi reveladora, mas a dor de cabeça e o cansaço não favorecem a plena criatividade da escrita.

Por isso, abstenho-me hoje, neste estado doentio e covídico, de falar, como tinha pensado, do grande e surpreendente livro de poesia de Rui Lage, Firmamento. Que a meditação do cosmos e o deslumbramento científico (que só tem antecedente na nossa poesia, que eu conheça, em Soares de Passos) venha entrosar com o perfeito amor a uma mulher e a uma filha, sem solução de continuidade, é um alto feito poético, em que o cosmos e a intimidade se respondem e correspondem num discurso poético denso e original. Mas como poderia eu dizer agora mais coisas, desenvolver este tema? O livro merecia uma atenção que eu não estou hoje em estado de dar. O covid é o grande aliado da preguiça.

Também este vírus nos torna menos recetivos às manifestações de indignação que se sucedem no espaço público, a respeito dos mais variados temas. São todas justíssimas, mas o cansaço afasta-nos de afirmações muito fortes e assertivas. Precisamos de verdade e aspirina, como bem dizia Álvaro de Campos, e o escândalo moral começa quando nos faz mais falta a aspirina do que a verdade.

A energia intelectual perde-se tão facilmente como a energia física. Lemos superficialmente e mal, com impaciência para seguir histórias e argumentos. Os romances aborrecem-nos, perdemos o nexo da narrativa, esquecemos os personagens. Os ensaios enfadam-nos, os argumentos perdem-se no cansaço da nossa mente. Como poderemos então escrever? Não será abusar do leitor?

Mesmo com uma grande constipação, Pessoa/Campos escreve. E no poema, tão imediato e quotidiano, faz aparecer a Rainha das Fadas de Spenser, porque o poema mais simples tem forçosamente por trás toda a História da Poesia:

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol e eu cá vou andando
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Mas sair da cama e escrever um artigo desconexo como este, ou, como Pessoa, escrever o poema que diz adeus à Rainha das Fadas, é sempre uma vitória sobre a nossa inércia e os nossos vírus. Não peço indulgência para este texto, porque ele afinal vem partilhar com o leitor uma grande constipação!

Diplomata e escritor

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