Taiwan aqui tão perto

Taiwan faz parte do nosso quotidiano. Assim acontece porque a empresa que produz a quase totalidade dos chips ao nível mundial, usados em tudo o que é eletrónica, telemóveis, autómatos e veículos automóveis, é a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC). Um colosso omnipresente, mas discreto, que vale na bolsa duas vezes o PIB de Portugal. E que convém lembrar, nesta semana em que se fala tanto da China.

Ora, a TSMC, ao produzir acima de 90% dos microprocessadores da última geração e por estar localizada em Taiwan, encontra-se no centro da rivalidade sino-americana. É um ponto nevrálgico da maior importância. Se houvesse amanhã um conflito em torno de Taiwan, a disponibilidade mundial de chips cairia a pique. Isso significaria a paralisação imediata das fábricas de veículos automóveis, de computadores, de telefones portáteis, das operações financeiras altamente sofisticadas e de tudo o que se relaciona com a utilização de micro e nanotransístores. Ou seja, seria o caos económico e social.

Os analistas que olham para estas coisas dizem que a TSMC é o escudo invisível que protege Taiwan. Pode ser, em certa medida. E a TSMC aposta nisso: prevê investir, nos próximos três anos, 100 mil milhões de dólares na expansão da sua capacidade científica e tecnológica. Mais chips, infinitamente minúsculos e de uma inteligência artificial extraordinariamente mais poderosa. Os números dão uma ideia do que está em jogo. Mostram, igualmente, que a política de defesa nacional passa pelo desenvolvimento de uma economia ultramoderna, que crie dependências estratégicas noutros azimutes.

Assim, não é nem do interesse de Beijing nem de outros desestabilizar Taiwan. Pelo menos, nos próximos sete a dez anos. Mas esta dependência absoluta em relação a uma só empresa é igualmente o expoente máximo da fragilidade dos grandes equilíbrios mundiais. Resulta de décadas de ultraliberalismo e de deslocalização da produção, tudo desenquadrado do que deveriam ser as preocupações geoestratégicas. A filosofia dominante fez-nos acreditar que a interdependência comercial apagaria as rivalidades entre os grandes blocos de nações. Sabe-se agora que isso é uma ilusão. As maiores guerras dos últimos cem anos foram iniciadas por loucos egocêntricos, que não tiveram em consideração o impacto económico - nem o humano - das suas decisões. Não creio que Xi Jinping entre nessa categoria, apesar da letra e do tom que ontem usou sobre Taiwan, na celebração do centenário do Partido Comunista Chinês. Mas também é verdade que bastaria um ataque altamente sofisticado de hackers contra uma secção da TSMC para fazer parar milhares de cadeias produtivas que estão dependentes da disponibilidade de chips.

Joe Biden compreende que os Estados Unidos não podem, nesta área tão vital, continuar totalmente dependentes do que se passa em Taiwan e de uma empresa apenas. O plano industrial que acaba de propor prevê um investimento de 50 mil milhões de dólares para estimular a produção doméstica de chips. A esse montante juntar-se-ão muitos milhares de milhões provenientes do setor privado. A verdade é que uma grande parte do trabalho de conceção científica nesta matéria é feito por empresas americanas de renome mundial - por exemplo, a Intel Corp, a Nvidia Corp, a Qualcomm ou ainda a Cisco Systems Inc. Mas separar a conceção da produção levou a uma vulnerabilidade extrema. É um bocado como desenhar armas altamente eficazes e pedir a outros que as fabriquem e depois nos abasteçam.

A União Europeia tem de seguir um caminho similar. Um dos pontos de partida deverá ser aproveitar o que a ASML Holding NV já representa. Esta empresa neerlandesa é dominante no que respeita à produção da maquinaria necessária para o fabrico de semicondutores. A ambição é a de produzir na Europa, já a partir de 2030, para além das máquinas, pelo menos 20% da nova geração de semicondutores. É uma meta modesta, mas mesmo assim serão necessários investimentos gigantescos nas indústrias digitais europeias. O montante atualmente previsto - à volta de 150 mil milhões de euros - é insuficiente, quando comparado com o que a TSMC e a sul-coreana Samsung - a segunda maior produtora de chips - têm em carteira. Mas a soberania europeia, incluindo a sua defesa, passa por uma presença determinante nas indústrias ligadas à digitalização.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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