"Como vocês, portugueses, reagiram à performance histórica do Bad Bunny, na Super Bowl, a exaltar-nos a nós, latinos?”, perguntou-me, mais ou menos por estas palavras, um brasileiro de formação universitária, na última segunda-feira.Foi a pergunta mais inusitada a que tive de responder no Brasil desde que, ainda como turista no ano 2001, alguém numa praia de sonho do Nordeste me perguntou que língua se falava em Portugal e, confuso com a minha resposta, insistiu num portunhol improvisado “para nos entendermos melhor”.Como todos os portugueses, por 37 anos, os que vivi em Portugal antes de emigrar para o Brasil há 15, fui “latino”. Lógico: nasci num país colonizado por romanos, que viviam numa região chamada Latium, hoje Lazio, e falo, por causa disso, uma língua de origem latina, além de ter outros traços culturais comuns a italianos, a espanhóis, a franceses, a romenos e também a belgas falantes de francês e suíços falantes de francês e italiano.No Brasil, passei só a “branco europeu”.A culpa, claro, é das denominações inventadas nos Estados Unidos, um país sempre desejoso de distinguir, hierarquizar e segregar os seres humanos, os do mundo e, sobretudo, os do próprio país, em raças, cores, estereótipos, passados e origens.Foi lá que inventaram o termo “latinos” para definir todos os originários de países da América Latina, que se chama assim, lá está, por ser composta pelos países americanos colonizados por espanhóis ou, no caso do Brasil, por portugueses.Um português (ou um espanhol ou um italiano) em passeio na Times Square, porém, não é descrito oficialmente como “turista latino” e sim como “turista branco europeu”.E os americanos de origem italiana são só italians ou ítalo-americanos, mesmo que os avós tenham chegado do tal Latium, hoje Lazio, o berço da latinidade. Não faz muito sentido, como tanta coisa nos Estados Unidos, a começar pelo atual presidente.Mas o mais triste desta história não são as proverbiais ignorância e xenofobia americanas. É a proverbial subserviência e submissão brasileiras às convenções dos Estados Unidos, mesmo as ignorantes e as xenófobas. Porque elas não partem apenas daqueles brasileiros, como Jair Bolsonaro e outros reacionários, que batem continência quando vêm a bandeira yankee e acham chique jogar futebol americano, comer hambúrgueres desvairadamente, tomar cafés do Starbucks e correr para comprar o último gadget de uma bigtech tão desnecessário quanto o penúltimo; parte também dos ditos progressistas, que replicam as agendas, as ideias e as expressões woke da academia americana mesmo quando essas agendas, ideias e expressões não têm sintonia prática para o povo brasileiro.O autor daquela pergunta de 2001 era alguém com poucos estudos. O autor desta de 2026 é um letrado.Respondi-lhe que não só adorei a coreografia de Bad Bunny em homenagem aos latino-americanos como, em boa medida, me revi nela, na qualidade de latino-europeu. Olhou para mim, confuso, e quase passou a falar comigo em portunhol. Jornalista, correspondente em São Paulo