Somos feitos de quem gostamos

Quando vim para Bruxelas "por dois anos e meio de certeza absoluta", há dezassete anos, enchi o carro de coisas que não faziam sentido para quem ia ficar tão pouco tempo. Além de livros escusados, como se não houvesse livrarias e muito mais para ler, trouxe umas trinta fotografias soltas. Umas férias, um baile, uma noitada, uma despedida, a entrega de um presente. Coisas antigas, algumas muito, que me lembravam alguma história. Se calhar por mal haver internet, não existir Facebook, voar ser caro, precisava de trazer raízes, que é o que as memórias são.

Entre as tais trinta fotografias estava uma de quatro amigos no último dia de aulas do 9.° ano do liceu. Tirada uns 18 anos antes, portanto. Desde essa tarde no Jardim da Estrela (se calhar não era o fim do ano lectivo, se calhar baldámo-nos a umas aulas quaisquer), vi algumas vezes uma das pessoas, mantive contacto esporádico com outra até há uns 20 anos e acho que depois do liceu quase só voltei a estar com o outro, o Pedro Oliveira, o Padó, numa festa e uma vez em que coincidimos num evento qualquer para jornalistas. De resto, passei a vê-lo na televisão de vez em quando e notava três coisas: que continuava a ter o ar simpático e bom, que parecia continuar a não precisar de ser o centro das atenções e que estava mais velho e, a certa altura, mais gordo e com menos cabelo. Se o que as raparigas achavam que era o mais giro do 9.° ano estava assim, não queria imaginar o resto. As outras pessoas todas envelhecem. Não percebo.

Há uns meses, foi preciso falar com um jornalista que fizesse televisão e percebesse de tecnologia. "Posso falar com um amigo a ver se está disponível." Um amigo. Que lata. Há mais de vinte anos que não nos víamos. Amigo? Amigo, sim.

Os nossos amigos são as pessoas de quem gostamos. E as pessoas de quem gostámos de alguma maneira e em algum momento. E nem é fundamental que eles saibam isso. Era bom, mas não é importante. O importante é que volta e meia olhava para a televisão e tropeçava na cara de alguém que me lembrava que aos catorze ou quinze anos fiquei amigo de um tipo bom que era simpático, bem-disposto, considerado o mais giro da turma sem ser convencido, e que tratava bem as pessoas. E ficava contente a ver que a vida lhe parecia ter corrido bem. E é por isso que isto não é um elogio ao Pedro Oliveira, que morreu subitamente na semana passada. Esse foi feito por imensa gente que se cruzou com ele, sobretudo na Exame Informática e na SIC, e que veio falar das suas qualidades, se calhar sem saber que muitas eram as mesmas que tinha em miúdo. É difícil maior elogio.

Mas isto não é, já disse, um elogio ao Pedro, que às tantas já mal se lembrava que tínhamos sido colegas de turma, nem tinha porque ter uma satisfação qualquer se visse um texto meu num jornal. Nem é para dizer que deixamos o tempo passar e deixamos passar o tempo de estar uns com os outros. Será sempre assim.

Isto é para recordar que somos feitos de muito mais do que de nós. Somos feitos, também, daqueles de quem decidimos gostar, dos que lembramos, das saudades que gostamos de ter. Que essas saudades velhas, essas amizades que fizemos lá longe nos acrescentem gente boa ao que somos, com sorte diz um pouco bem de nós. Por isso este é um texto egoísta. Mas é verdade. Gostarmos de gente boa pode não lhes fazer diferença nenhuma, mas faz-nos a nós um bocadinho melhores. Obrigado, Pedro.

Consultor em assuntos europeus

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