Sol na eira e chuva no nabal

O setor do turismo é uma atividade económica fundamental para a geração de riqueza e emprego em Portugal. Nos últimos 9 anos o país registou uma taxa de crescimento médio anual de 7,2% nas dormidas o que se traduz num aumento de 37 milhões de dormidas em 2010 para 70 milhões de dormidas, em 2019, o maior valor de que há registo.

Observou-se igualmente nas receitas turísticas uma taxa média de variação anual de 10,3%, nos últimos 9 anos, o que permitiu que de 7,6 mil milhões de receitas em 2010 o aumento fosse para 18,4 mil milhões em 2019 (O Turismo em Portugal: factos e números. Turismo de Portugal).

Ao longo de muitos anos não houve quem - comentadores, jornalistas, analistas, economistas e escribas em redes sociais - não viesse desprezar o Turismo em Portugal porque assente, diziam, no crescimento sem valor acrescentado para o país, já que movido pelo aumento da procura pelo turismo de massas, que não deixavam receitas, nem nos posicionavam como um destino de elite ou, vá, de primeira linha, que pudesse cativar outros mercados mais exigentes.

Eis que consistentemente, fruto de um trabalho entre públicos (destaque para o Turismo de Portugal) e privados (os empresários da hotelaria, restauração, animação, organização de eventos, congressos e incentivos, mas também as universidades, centros de investigação e conhecimento, indústrias de ponta, etc.), Portugal foi sendo descoberto como um país muito interessante para viajar, estudar, investigar, viver e investir. E, naturalmente, as receitas geradas pelo Turismo foram crescendo, tal como o seu relevo socioeconómico.

Porém, os do costume lançam-se agora contra o Turismo "dos ricos", porque está a descaracterizar o país; porque é feita uma alocação excessiva de recursos e de promoção de uma indústria que nos torna dependentes dos ciclos económicos e dos "humores" dos mercados emissores; porque gera um desequilíbrio brutal socioeconómico-cultural entre os turistas (de passagem ou residentes, mais ou menos temporários ou mesmo residentes permanentes) e os autóctones, que são excluídos do banho de benfeitorias que o Turismo traz... Ou seja: o crescimento das receitas e o reposicionamento de Portugal como destino turístico de excelência junto de mercados com maior poder de compra, que se almejava, tendo sido alcançado, afinal já não serve.

Acresce agora mais uma feroz crítica contra os empresários da hotelaria, porque os preços que praticam na época alta não podem ser suportados pelo português médio.

Por muito que compreenda o desconsolo e considere que o nosso país, se não é bom para nós portugueses, não conseguirá reter população, pelo que perderá também o Turismo, pergunto-me afinal em que ficamos?

É certo, e já escrevi muito sobre o tema, que a busca de equilíbrio entre moradores locais e residentes não-habituais (ou entre visitantes e visitados); o reconhecimento e envolvimento das comunidades de acolhimento e obter a justa medida de capacidade de carga ambiental, urbanística e logística dos territórios - mais ainda quando no espaço e no tempo existe uma clara competição entre dois grupos por recursos naturais, pela habitação e pelo uso de instalações - são processos de extrema complexidade e dificuldade. É também certo que quando são tomadas opções de política fiscal que discriminam positivamente "o estrangeiro" (por muito racional que possa parecer tal opção), o grau de distância social e económica se acentua e pode vir a provocar aversão, repulsa e antipatia.

Mas, mais uma vez, a solução não pode passar nem por fechar os olhos às externalidades negativas que o Turismo gera, nem por alimentar a turismofobia e condenar-nos a viver sem uma das nossas principais fontes de riqueza.

Uma coisa é certa: não podemos ter a riqueza que o Turismo gera sem os turistas. Ou em bom português: ter sol na eira e chuva no nabal.

VP executiva da AHP - Associação da Hotelaria de Portugal

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG