Socialismo e justiça social

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Temos uma inflação superior à média dos restantes países da União Europeia. Como temos a mesma moeda e os salários não subiram, as razões dos aumentos dos preços dos produtos são todas de carácter internacional e iguais para todos: claramente estamos a ser alvo de um aproveitamento por quem apenas quer ganhar mais dinheiro.

E isto preocupa-me muito.

Num país em que ouvimos dizer que somos pobres, como é que ainda ninguém se preocupou em procurar a razão real desta inflação abusiva e abusadora?

Mais uma vez, neste país, quem tem o poder e quem tem a riqueza aproveita-se dos mais necessitados para fazer o seu caminho. Por um lado, o governo está mais interessado em assegurar o rendimento extraordinário obtido pelos impostos que aumentam em linha com o aumento dos preços, do que em ajudar o cidadão. Por outro, as empresas estão a subir os preços dos seus produtos com base numa inflação imaginária e não em função dos aumentos reais dos seus custos.
Tanto uns como os outros estão a ser responsáveis por uma crise maior, de que todos falam. Mas ninguém tem qualquer ideia se esta crise seria uma realidade se não existisse esta contribuição excecional.

Já aqui referi as razões múltiplas que originaram esta inflação e que, por serem tantas, tornam ainda mais impossível prever aquilo que acontecerá de cada vez que se altera uma das suas componentes.

Contudo, a ameaça constantemente apregoada de que iremos ter uma crise, somada aos dois vícios a que me referi e que garantem uma inflação exagerada, vai seguramente criar as condições para uma diminuição da procura, uma diminuição do investimento e uma subida excessiva do custo de vida, que estabelecerão as condições ideais para que essa crise tenha efetivamente a sua oportunidade. Mas, pior ainda, é aquilo que o governo e a União Europeia preveem como medidas de contenção dos abusos dos aumentos de preços, com o tal imposto extraordinário sobre lucros excessivos.

Se existem lucros excessivos por aumento de preços não justificados pelos custos de produção, isso significa apenas que está a ser cobrado a cada cidadão um valor excessivo face àquilo que deveria ser o seu preço.

Ora, como é que o aumento de impostos e o aumento de oportunidade de um Estado poder desperdiçar mais dinheiro injustificadamente cobrado - não estava considerado no orçamento geral do Estado - resolve o problema do cidadão já empobrecido por não ver o seu salário aumentado ao valor da inflação, e que acabou de pagar o dobro por um serviço ou produto que não justifica esse preço?

E como penalizar o Estado pelos seus ganhos inesperados e excessivos à conta dos cidadãos? Em que justiça social estamos nós envolvidos quando um governo, que se diz defensor do aspeto social da vida e que por isso se diz socialista, explora o cidadão deixando que lhe seja cobrado muito mais do que seria devido e fazendo a justiça social transformar-se apenas numa duplicação do imposto aplicado a esse mesmo cidadão?

Não foi esta democracia que eu aplaudi quando foi instituída no 25 de Abril. Não foi para criar mais pobreza nem para dar mais poder aos que governam que acreditei que valia a pena viver em liberdade. A minha democracia defende sempre e em primeiro lugar o cidadão, que é o verdadeiro destinatário dos benefícios da existência de um Estado politicamente organizado, e não um Estado que se serve do cidadão para justificar o seu gigantismo.

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