Sociais-democratas a votos

Neste fim de semana, os sociais-democratas, longe do poder há mais tempo do que estavam habituados, escolhem o líder que os defenderá nas eleições do próximo ano. Um deles representa, de alguma forma, a continuidade. E o outro, em certa medida, a rutura.

Este último foi notícia nos últimos meses não apenas por razões políticas mas também pessoais: assumiu-se homossexual num programa de televisão.

Como sempre nas campanhas, a comunicação social acusou os dois candidatos de se preocuparem mais com ataques pessoais do que com os problemas nacionais e os desafios eleitorais que os esperam - o favoritismo do partido de centro-esquerda, o avanço da extrema-direita.

Esta introdução pode soar familiar aos portugueses mas refere-se à atualidade do Brasil, como não podia deixar de ser num espaço do jornal que lhe é dedicado: os militantes do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), partido fundado logo após o restabelecimento da democracia no país, tal como o PSD, vão a votos neste fim de semana decidir qual será o seu candidato nas eleições de 2022 contra Lula da Silva, de centro-esquerda, e Jair Bolsonaro, de extrema-direita.

De um lado, concorre João Doria, principal figura do PSDB nos últimos dois anos. Do outro, Eduardo Leite, acabado de "sair do armário" para escândalo de alguns.

Em teoria, o eleito dos sociais-democratas brasileiros deveria ter sido conhecido no fim de semana passado, conforme o DN anunciou na edição do dia inicialmente marcado para a realização das "primárias", mas um erro na app de votação adiou a contagem para o próximo.

Um sinal da decadência do partido, notaram observadores, com o resultado das eleições de 2018 na memória. Nelas, os "tucanos", como são chamados os membros do PSDB, não chegaram sequer aos 5%, depois de nas de 1994 e 1998 terem ganho, via Fernando Henrique Cardoso, e de nas de 2002, 2006, 2010 e 2014 terem obrigado ora Lula ora Dilma Rousseff, candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), a segundas voltas mais ou menos apertadas.

Se houve, portanto, partido atingido pela Operação Lava-Jato e pelo bolsonarismo não foi o PT - afinal, Fernando Haddad obteve mais de 47 milhões de votos mesmo iniciando a corrida atrasado - mas sim o PSDB - que perdeu em quatro anos 45 milhões de eleitores, quase todos para o ex-capitão, apesar de o candidato Geraldo Alckmin dispor de mais tempo de antena do que toda a concorrência.

Para o descalabro "tucano" nesse período contribuiu a decisão do então líder Aécio Neves de ajudar Michel Temer a puxar o tapete de Dilma, em 2016, em vez de esperar que a presidência lhe caísse no colo na hora certa, isto é, pelo voto, em 2018. Por outro lado, mesmo poupados propositalmente por Sergio Moro na Lava-Jato (há mensagens do ex-juiz a provar essa proteção), os principais dirigentes do PSDB acabaram atingidos por pingos do escândalo do Petrolão, estimulando os seus eleitores tradicionais a cair no canto da sereia de um outsider, por mais perigoso e incompetente que ele fosse. E era.

O passado, entretanto, foi lá atrás. Agora, o futuro dos sociais-democratas do Brasil é escolher, mais ou menos em simultâneo com os seus quase homónimos portugueses, entre Doria, atual governador de São Paulo (sim, Paulo) e Leite, atual governador do Rio (sim, Rio) Grande do Sul.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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