Sobre o Dia Mundial da Língua Chinesa

Existem em português várias expressões idiomáticas que traduzem de forma eloquente a perplexidade e a incompreensão com que a cultura portuguesa (e provavelmente outras culturas europeias) observa a cultura chinesa, ou a imagem estereotipada que dela chegou até nós - e.g. "ficar com os olhos em bico" [perante uma grande dificuldade], [uma coisa incompreensível] "ser chinês" ou [ter] "paciência de chinês" [para executar uma tarefa cheia de minúcias]. Muitas destas expressões estão ligadas, acredito, à escrita chinesa, por ser logográfica, com muitos carateres e princípios diferentes dos da escrita alfabética.

Se a escrita chinesa é complicada e enigmática, a situação linguística na China não há de ser menos.

Em 2010, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu os "Dias das Línguas", uma iniciativa com o objetivo de celebrar o multilinguismo, a diversidade cultural e de promover o uso efetivo das seis línguas oficiais da organização (árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo). Na verdade, embora o chinês fosse língua oficial da ONU desde 1946, só em 1973 a Assembleia Geral o adotou como língua de trabalho da organização, seguida do Conselho de Segurança, em 1974, e posteriormente das demais instituições.

Mas há mesmo uma língua chinesa? E, a haver, que língua é esta?

Pela dimensão do país e da sua história, a China constitui um espaço onde se agrupam muitos povos (etnias) e respetivas línguas e culturas. Aquilo a que no Ocidente chamamos "chinês" corresponde na China ao hanyu, língua da etnia Han, maioritária no país. O hanyu pertence à família das línguas sino-tibetanas, que tem mais de 450 membros, e conta com 1,3 mil milhões de falantes. Esta língua é falada praticamente em todo o território chinês, mas também em Taiwan e em Singapura, onde é uma das quatro línguas oficiais. Considera-se a existência de outras 55 etnias dentro do Estado chinês, a maioria delas com línguas próprias e 23 mesmo com sistemas de escrita próprios. Considera-se ainda a existência de oito grandes grupos de dialetos da língua chinesa - não sei, porém, até que ponto, da perspetiva ocidental, se trata efetivamente de dialetos ou de línguas diferentes, posto que a diferença entre línguas e dialetos nem sempre se baseia em critérios linguísticos, mas (também) em critérios de natureza política.

Tendo em conta o número de falantes e a extensão geográfica da China, não será difícil imaginar que a variação dentro do hanyu seja imensa, reforçando a necessidade de codificar uma variedade formal, escrita, capaz de desempenhar o papel de língua oficial, de língua do Estado, e de contribuir para a coesão do país. Esta variedade-padrão, baseada nos dialetos do norte da China, recebeu na China, sucessivamente, os nomes de guan hua (língua dos mandarins) guo yu (língua nacional) e, mais recentemente, putong hua (língua do povo).

No Ocidente, a variedade-padrão é conhecida como "mandarim", que provém da palavra malaia mantarin (alto funcionário), por seu turno proveniente do sânscrito mantri/mantrin (conselheiro de Estado). Mandarín (espanhol), mandarino (italiano), mandarin (francês e inglês), etc. entraram nas línguas europeias, no século XVI, através do português "mandarim". Os especialistas atribuem a mudança do "t" (de mantrin) pelo "d" (de "mandarim") à analogia com o verbo português "mandar", prova da contribuição de analogias e corruptelas na renovação lexical.

Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

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