Só Rui Rio é que ganhou nestas eleições?

1 A noite eleitoral sorriu a Rui Rio, ainda antes de se começarem a contar os resultados - as projeções das televisões para Coimbra, a dar vitória folgada à coligação que o PSD juntou para eleger José Manuel Silva, e a possibilidade de Carlos Moedas, noutra coligação promovida pelo PSD, discutir taco a taco a presidência de Fernando Medina, garantiram que a contestação interna ao líder do PSD terá de aguardar por melhores dias - apesar de não serem resultados do PSD sozinho, o frenesim mediático da noite atirou todo o restante panorama eleitoral para um lugar secundário e Rui Rio vai beneficiar disso.

2 António Costa empenhou-se muito nesta campanha e, hoje, deve haver muitos autarcas socialistas a acharem que mais valia ter ficado em São Bento. Mas o efeito político nacional desta eleição - que poderia mudar o líder da oposição - é nulo e isso favorece Costa que, finalmente, pode preparar-se para disparar a bazuca de milhões de euros que andou a prometer na campanha eleitoral. O Partido Socialista perdeu muitas câmaras que parecia estarem seguras. À hora que escrevo ainda não se percebeu claramente a dimensão dessa descida, mas talvez não seja abusivo dizer que há uma tendência nacional para a degradação da imagem dos socialistas, sobretudo a norte do país. Mas parece seguro que mantém a liderança autárquica.

3 A CDU tem uma nova derrota que ficou logo sinalizada no princípio da noite quando todas as sondagens confirmavam que não conseguiria recuperar Almada. O PCP defronta-se com a realidade de que a derrota de 2017 teve razões bem mais profundas do que a de ter uma boa ou má cara para encher os cartazes e, até, bons ou maus presidentes de câmara. À hora que escrevo havia a possibilidade de a CDU perder câmaras importantes como Setúbal, Loures e Évora, embora continue a ser o único partido, fora PS e PSD, com expressão autárquica relevante. Se essas perdas se confirmarem, a fragilidade política do PCP atinge níveis inopinados.

4 André Ventura foi cantar vitória para o Chega, logo às 21h45, mas estava redondamente enganado: tudo indicava ao fim da noite de ontem que o Chega não consegue nenhuma presidência de câmara, não consegue ser a terceira força política nas autárquicas, o número de vereadores eleitos é escasso e ficou longe dos 12% que Ventura obteve nas presidenciais - o partido ainda tem de trabalhar muito para ter verdadeira implantação. Todos os objetivos que o próprio Ventura traçou não foram atingidos.

5 Há uma data de anos que o Bloco de Esquerda tenta ser alguém no país real que as autarquias representam. Mais uma vez não conseguiu.

6 Os novos partidos, IL e PAN ,também estão longe de conseguirem a nível local a dimensão que têm a nível nacional.

7 O CDS sobrevive, fraco, à boleia do PSD, tal como se esperava.

8 maioria dos movimentos independentes apresentou ex-membros de partidos que saíram zangados com as direções ou com as concelhias das organizações onde militavam - muitos são puros caciques locais. É uma tendência que se acentua em cada eleição autárquica. A ideia de que abrir esta possibilidade de eleição fora da esfera partidária traria sangue novo à política parece estar errada.

9 A abstenção oficial foi grande, mas há um milhão de portugueses que estão recenseado e que emigraram para o estrangeiro, pelo que abstenção real é muito inferior. Isto devia ser corrigido.

10 Os efeitos políticos desta eleição não podem ser medidos no imediato - a leitura total dos resultados pode modificar radicalmente as primeiras análises. Mas parece ser seguro que Rui Rio consegue aqui uma vitória política e todos os outros saem derrotados, embora uns mais do que outros.

Jornalista

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