Smiley, Sousa e Setúbal

Smiley, Sousa e Setúbal poderia ser o nome de uma ancestral sociedade de comerciantes de vinho, mas é antes o título deste texto. Falando a sério, o que têm em comum George Smiley, Jerónimo de Sousa e o Concelho de Setúbal? Aparentemente, nada. Este fim de semana, tudo. E talvez o primeiro ajude a explicar a controvérsia que assolou os demais nos últimos dias.

Naquele que é o mais humano dos seus romances, Smiley, célebre personagem de Le Carré, profere uma palestra a uma nova fornada de espiões após a queda do Muro de Berlim. No Peregrino Secreto (1991), o protagonista do decano da literatura de espionagem daquele século diz assim aos caloiros de Sarratt: "A espionagem é eterna. Mesmo que os governos pudessem passar sem ela, nunca passariam. Adoram-na".

Para compreender o escândalo da Câmara Municipal de Setúbal e a extensão da influência russa nas nossas sociedades é preciso começar por aí. Não há nada mais comum, nas relações entre nações, do que a espionagem. Ela acontece todos os dias, a todas as horas, em todas as capitais. De forma direta ou indireta, todas as associações de representação estrangeira reúnem esse potencial. Os think tanks, os institutos académicos, as organizações governamentais, os núcleos de imigrantes, as comunidades culturais, os encontros mais inocentes. Consoante o posicionamento de cada potência, a respetiva embaixada pode incentivar mais ou menos esse tipo de penetração. Nada disto é novo, nada disto é surpreendente, e garantidamente que não é apenas a Federação Russa a manter pontes ‒ bastante úteis do ponto de vista do acesso a informações - com os seus cidadãos em território português.

Para compreender o escândalo da Câmara Municipal de Setúbal e a extensão da influência russa nas nossas sociedades é preciso começar por aí. Não há nada mais comum, nas relações entre nações, do que a espionagem.

Coincidência ou não, o caso da Câmara Municipal de Setúbal, em que um russo com ligações ao regime de Putin foi encarregado de entrevistar e lidar com documentação de refugiados ucranianos, não é mais do que a concretização desse tipo de rede.

O problema é que a Rússia é, neste momento, uma inimiga assumida da União Europeia, tendo invadido uma democracia do continente em clara violação do Direito Internacional. O problema é que associações pró-Kremlin, como a envolvida no episódio, têm hoje financiamento público, causando a bizarra situação de o Estado português patrocinar espionagem no seu próprio território.

Nada disto seria imputável ao Partido Comunista Português, até porque Setúbal não se trata da única autarquia onde tal ocorreu, caso a reação do município sadino houvesse sido outra. Primeiro, mentiu sobre uma carta enviada ao primeiro-ministro, prontamente exposta pelo gabinete de António Costa. Depois, mentiu sobre a relação do cidadão russo com o SEF, igualmente desmentida pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

Quem sentiria tamanha necessidade de encobrimento se não tivesse nada a encobrir? Que país é este em que uma Câmara usa o Estado como véu para ocultar o modo como corrompeu os deveres do Estado? Que sinal dá Portugal enquanto parceiro e aliado europeu?

A guerra na Ucrânia mudará muito do que é a nossa vida quotidiana e a nossa ordem política. A forma como encaramos a espionagem no nosso país não será indiferente a isso.

Os governos podem adorá-la, como dizia George Smiley.

Convinha que não a ignorassem.


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