Sinto um vazio na minha alma

Depois de dois anos de pandemia, de uma vida controlada, em que muitas das nossas convicções foram postas em causa, de um tempo em que a nossa liberdade foi completamente condicionada por razões de saúde pública, chegou finalmente o tempo de voltar a viver.

E é exatamente neste momento de me reabrir ao mundo e de voltar a ser dono das minhas decisões e ações que eu sinto este vazio.

Uma sensação de que tudo o que vivíamos desde há muito não era mais do que deixar andar, de que nos fomos perdendo num caminho em que, para conseguirmos manter o que tínhamos, nos fomos adaptando às lentas correções que, pouco a pouco, nos retiraram exatamente aquilo que queríamos manter.

Quando vivi a chegada da liberdade, lutei pela minha convicção do que era para mim essa liberdade. Discuti com outros aquilo em que discordávamos e, juntos, com uns mais de acordo e outros mais em desacordo, Portugal avançou para uma normalidade em que nos sentíamos integrados e em que uma grande maioria tentava participar.

Seguimos depois um caminho em que se foram tentando remover obstáculos e em que cada um tentou trazer as suas ideias a público de modo a fazer evoluir a situação em que tínhamos acordado viver.

Passaram os anos e fomo-nos acomodando, de tal modo que fomos aceitando as tais pequenas mudanças, sem já despender esforços para lutar pelas nossas convicções e permitindo aos profissionais da política assumir os destinos de Portugal.

Chegados ao tempo da pandemia, e aqui aceitando o argumento de peso da saúde pública, fomos acatando as decisões que nos condicionaram a liberdade a um nível que nunca antes nos tinha passado pela cabeça. Permitimos que, sem qualquer explicação, nos retirassem a possibilidade de fazer aquilo que pudesse ser mais natural, sem que fosse seguro que essa decisão tivesse qualquer peso no combate ao vírus que nos afetava.

E agora vamos voltar a viver. Aos poucos! Pois é difícil a quem controla assumir que vai perder esse poder.

Mas aquilo que mais me preocupa é que eu não quero voltar a viver o que vivíamos antes da pandemia... eu não quero voltar a não participar nas decisões do futuro do meu país. Eu não quero ser liderado por quem mais não fez do que esperar pela sua vez. Eu não quero ser comandado por quem não tem a visão, a ambição, a coragem e a vontade de fazer deste Portugal um país grande de homens e mulheres interessados em fazer mais e melhor.

Eu quero poder dizer o que penso, lutar pelo que acredito, partilhar com quem não pensa como eu e, em conjunto, levar o meu país a ser um grande país.

No espectro partidário não encontro quem me possa representar, quem defenda os valores da pessoa humana e que queira verdadeiramente o melhor para cada pessoa que faz este país.

E sinto um vazio na minha alma.

Um vazio que precisa de ser preenchido para que eu possa voltar a viver. Que possa ser substituído por uma esperança de amanhã ser melhor e de ver à minha volta as caras felizes de quem se sente realizado por participar na construção de uma realidade maior.

Para isso precisamos de boa gente e de nova gente, de atrair aqueles que estão disponíveis para dar, mas que não se sentaram nos partidos à espera da sua vez.

Precisamos de mudar para voltar a acreditar e de aprender a voltar a viver.

Agora que temos uma nova oportunidade não a podemos perder.

bruno.bobone.dn@gmail.com

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