A depressão Kristin não arrancou só vidas, telhados, árvores, postes de alta tensão, mas deixou também expostas as falhas de um Estado que voltou a não estar à altura num momento crítico. Quando foi ao terreno, Marcelo Rebelo de Sousa quis passar a mensagem de que, desta vez, não se terá tratado de uma falta de prevenção. Permita-me discordar, Sr. Presidente: foi precisamente o que aconteceu. Falhamos, uma e outra vez, por falta de prevenção nas políticas públicas, por falta de escolhas responsáveis ao longo de anos, capazes de preparar o país para fenómenos que já não podem ser tratados como inesperados.Prevenir não se resume a alertas meteorológicos a avisar que vem aí tempestade. É garantir que as infraestruturas não fiquem desajustadas a fenómenos climáticos cada vez mais extremos, como apontou (e bem) o Presidente da República. É investir em redundância nas comunicações móveis, geradores, redes elétricas mais resilientes, reforço de meios técnicos e humanos. Tudo isto implica muito dinheiro? Sim. Mas implica sobretudo fazer as escolhas políticas certas, para não perpetuarmos a incompetência e a impreparação que corroem a confiança dos cidadãos nas instituições do Estado.Ao longo de décadas, Portugal foi abandonando o investimento público sustentado, a manutenção das infraestruturas e o reforço da capacidade de resposta do Estado. O resultado é evidente: estamos vulneráveis aos “azares” que inevitavelmente acontecem, apesar dos alertas científicos repetidos que, na prática, continuamos a ignorar. Uma postura próxima da irresponsabilidade dos populistas e negacionistas que criticamos (os quais, depois, são lestos a explorar as consequências dos fenómenos que fingem não existir).Por isso, voltámos a falhar, sim. Mas a essa incapacidade estrutural do País juntaram-se também falhas graves na resposta concreta a esta crise. Não existiu um sistema eficaz de alerta e prontidão. Demorou-se a perceber a verdadeira dimensão dos estragos, num país que, administrativamente, continua a não enxergar para lá do umbigo centralista. A resposta foi desarticulada, sem uma mobilização nacional à altura, deixada à iniciativa de cada município e da própria sociedade civil, que, consciente do indecoro do Estado, se desdobra em iniciativas de apoio e voluntariado.Tivemos ministros mais preocupados com vídeos de promoção pessoal, desfiles de vaidades em frente às câmaras, outros inexplicavelmente desaparecidos de combate e uma comunicação institucional tão fiável quanto a do SIRESP que, pasme-se, voltou a registar falhas. O estado de calamidade teve de esperar pelo Conselho de Ministros do dia seguinte, a Comissão Nacional de Proteção Civil reuniu-se só este domingo (cinco dias depois), e milhares de pessoas continuam sem luz, água ou comunicações.A depressão Kristin deixou um rasto de destruição material que vai levar muito tempo a consertar e uma tarefa ainda mais difícil pela frente: reparar a confiança dos cidadãos nas instituições do Estado.