A celebração dos setenta anos da adesão de Portugal à Organização das Nações Unidas, em 14 de dezembro de 1955, constitui um momento de particular significado na história diplomática e política do Estado português. Mais do que uma efeméride, esta data convida a uma reflexão aprofundada sobre o percurso de Portugal no sistema internacional e sobre a forma como o país se foi afirmando, ao longo de sete décadas, como um defensor consistente dos valores fundadores das Nações Unidas: a paz, a cooperação entre os povos, o respeito pelo direito internacional e a dignidade da pessoa humana.A entrada de Portugal na ONU representou, à época, um passo decisivo no processo de afirmação internacional do país no pós-Segunda Guerra Mundial. Num contexto global marcado pela Guerra Fria, a adesão portuguesa significou o reconhecimento formal da sua pertença à comunidade das nações e a integração num espaço político global destinado à preservação da paz e à promoção da cooperação.Mesmo num quadro político interno distinto do atual, a participação de Portugal na ONU constituiu desde cedo uma oportunidade de diálogo internacional e um ponto de contacto permanente com as grandes transformações do sistema mundial. A ONU tornou-se, assim, um espelho das tensões, desafios e escolhas estratégicas que marcaram a política externa portuguesa ao longo do século XX.Porém, a década de 60 e o início dos anos 70 revelaram-se exigentes para Portugal. A questão colonial colocou Portugal no centro de debates intensos na Assembleia Geral da ONU e evidenciou as profundas mudanças normativas que atravessavam o direito internacional, nomeadamente a consagração do princípio da autodeterminação dos povos. Este período, embora difícil, foi determinante para a maturação da relação de Portugal com as Nações Unidas, demonstrando o papel da organização como espaço de confronto político, mas também como motor de transformação histórica.Com a Revolução de 25 de Abril de 1974 abriu um novo capítulo. A democracia, a descolonização e a adesão progressiva aos grandes consensos internacionais permitiram a Portugal reencontrar na ONU um espaço natural de pertença e de afirmação.Assim, ao longo das últimas décadas, Portugal tem-se afirmado como um participante empenhado nas iniciativas das Nações Unidas. A presença portuguesa em missões de manutenção da paz, a participação nos debates sobre direitos humanos, desenvolvimento sustentável, segurança internacional e governação dos oceanos refletem uma política externa coerente, assente no diálogo e na cooperação.Também a eleição de Portugal para o Conselho de Segurança como membro não permanente, em várias ocasiões, testemunha o reconhecimento internacional da sua atuação responsável e da sua capacidade de contribuir de forma construtiva para a segurança coletiva.Olhemos, por exemplo, para a eleição de Diogo Freitas do Amaral como Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1995. Esta eleição constituiu um dos momentos mais simbólicos da presença portuguesa na organização. Este acontecimento representou não apenas uma distinção pessoal, mas o reconhecimento da maturidade democrática e da credibilidade internacional de Portugal.A presidência de Freitas do Amaral traduziu uma visão humanista e jurídica das relações internacionais, profundamente alinhada com os valores da Carta das Nações Unidas. Foi também um sinal claro de que Portugal se afirmara plenamente como um membro respeitado no seio do multilateralismo global.Já em pleno século XX, a eleição de António Guterres como Secretário-Geral das Nações Unidas, em 2016, elevou a relação entre Portugal e a ONU a um patamar sem precedentes. Pela primeira vez, um português assumiu a liderança da organização, num período marcado por desafios globais de enorme complexidade.O percurso de António Guterres, como Alto Comissário para os Refugiados e como Secretário-Geral, projetou internacionalmente uma visão assente na centralidade da pessoa humana, na solidariedade internacional e na defesa internacional. A sua liderança tornou-se motivo de legítimo orgulho nacional e reforçou a associação de Portugal às grandes causas globais do nosso tempo, da proteção dos refugiados à ação climática.Hoje, celebrar setenta anos de Portugal nas Nações Unidas é celebrar um percurso de aprendizagem, transformação e afirmação internacional. É reconhecer o caminho percorrido desde uma integração cautelosa até uma participação ativa e influente no sistema internacional.Num mundo atravessado por incertezas, conflitos e desafios globais que nenhum Estado pode enfrentar isoladamente, a experiência portuguesa reafirma a atualidade e a necessidade das Nações Unidas. Portugal, fiel ao espírito da Carta de 1945, continua a afirmar que o diálogo, a cooperação e o respeito pelo direito internacional são os alicerces indispensáveis de uma ordem internacional justa e sustentável.Setenta anos depois, a presença de Portugal na ONU não é apenas um facto histórico, é um compromisso vivo com o futuro.