Serviço Nacional de Saúde

A Ministra Marta Temido demitiu-se.

Não sei as suas razões, nem as próximas nem as longínquas, mas creio poder adivinhá-las. Mas as mesmas, sejam quais forem, não são para aqui chamadas. Já sabemos o que por aí vem, com uns a dizerem cobras e lagartos e outros a adoçarem a pílula sem, nem uns nem outros, discutirem o fundamental.

E o fundamental é o Serviço Nacional de Saúde.

Criado por António Arnaut em 1979, o SNS propunha-se a proporcionar cuidados de saúde tendencialmente gratuitos à população portuguesa, à semelhança do que era feito em muitos países europeus, nos quais a filosofia de um "estado-providência" era, à época, dominante. Cabia ao estado cuidar da saúde da sua população. Sendo Portugal um país pobre e atrasado em relação aos países do norte europeu onde vingava esta forma de cuidados de saúde, esta viragem trouxe uma substancial melhoria em todos os aspectos dos acessos a cuidados hospitalares diferenciados gratuitos a uma enorme parte da população portuguesa.

Nem que fosse só por isso, já teria valido a pena apostar num Serviço Nacional.

Mas, acompanhando esta importante reforma estrutural, vieram a reboque muitas outras, como a criação das carreiras médicas, das carreiras de enfermagem e de tantos técnicos de diagnóstico e terapêutica, abrindo portas a outros tantos cursos universitários até então inexistentes.

Reforço que o SNS não pode ser olhado só pelo prisma de prestação de cuidados de saúde. Tem de ser olhado como uma porta escancarada ao estudo e à formação de milhares de jovens que viram abrirem-se novas oportunidades e novas carreiras de nível universitário.
Criou-se assim um mundo complexo de oportunidades, mas também um mundo complexo de reivindicações mais ou menos justas, com maior ou menor cariz político, com o respectivo aproveitamento por todos os quadrantes da política portuguesa.

Faltou no entanto ao SNS um fio condutor da sua filosofia geral. Criaram-se estruturas hospitalares, centros de saúde, autónomos na gestão de recursos, sem enquadrá-los numa óptica de Serviço comum a todos quantos têm por obrigação atender os doentes que os procuram, isto é, um paciente de Trás-os-Montes ou do Alentejo deveria ter a mesma qualidade de cuidados que um paciente de Coimbra ou Lisboa. Na realidade, o que nos apercebemos, é que um profissional, médico ou outro, de uma unidade de saúde, seja de cuidados primários ou diferenciados, sente que em primeiro lugar faz parte daquela unidade que lhe paga o ordenado e só depois se lembra que integra um universo muito maior, grande como o País. O paradigma deveria ser, em primeiro lugar fazer parte de um Serviço que é nacional, presta serviço numa unidade X, e que por isso vai dar o seu melhor para que a sua unidade seja reconhecida dentro do universo muito mais abrangente que é o Serviço Nacional.

E é aqui, na criação de novos paradigmas gerais, com foco numa relação diferente entre Cuidados Primários e Cuidados Diferenciados, uma relação de proximidade e cumplicidade, numa retoma de formação com nível universitário (há actualmente universidades em todos os cantos de Portugal), numa motivação permanente de serviço público (com ordenados capazes de atrair os jovens em início de carreira mas também os mais velhos com capacidade formativa), fomentando o orgulho de ser e pertencer a um Serviço Nacional que presta os cuidados que foram, em última análise, o que motivou a escolha da profissão.

O Serviço Nacional de Saúde tem de se actualizar passando a ser encarado como um Sistema Nacional que integre todos os agentes públicos e privados e da área social, sob pena de ter sido em vão que a Ministra Marta Temido tenha pedido a demissão. Se o fez foi porque sentiu já não ter capacidade agregadora e é pegando no que ainda não foi feito que o Governo tem de actuar daqui em diante.

Demitir-se em vão, morrer em vão, não é, nunca, uma solução!

P.S. - esta opinião é pessoal e independente de qualquer força político/partidária.

Médico

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG