Será que os portugueses precisam de reabilitar o coração? 

Se teve algum problema cardíaco, fale com o médico assistente para perceber se deve ser incluído num programa de reabilitação. Está provado que reduz a mortalidade e as hospitalizações. São anos de vida feliz e saudável que pode ganhar.

As doenças cardiovasculares (DCV) continuam a ser a principal causa de morte a nível global. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde em 2019, antes da pandemia, mataram 17,9 milhões de pessoas em todo o mundo, representando 32 % das mortes totais. Contabilizando apenas o ano de 2019, sabe-se que morreram 31.920 portugueses e perderam-se 45.950 anos de vida em resultado do aparelho circulatório, o que perfaz cerca de um terço das causas de morte em Portugal.

Ter um ataque cardíaco pode tornar o doente muito ansioso: vai precisar de apoio para viver com esta nova condição cardíaca, de modo a manter-se o mais saudável possível. O objetivo primário da reabilitação cardíaca é reduzir o risco de um evento cardíaco futuro, estabilizando, retardando ou mesmo revertendo a progressão da doença cardiovascular.

Existe a evidência que os programas de reabilitação cardíaca reduzem o risco de mortalidade cardiovascular em 10% e as hospitalizações por doença cardíaca em cerca de 30% - e isto já na nova era das mais modernas técnicas e dispositivos invasivos e dos melhores tratamentos farmacológicos.

A reabilitação cardíaca é um programa que se baseia na actividade física, mas não só. É um programa abrangente que aborda os fatores de risco cardiovasculares e fornece educação sobre o que é uma vida saudável, assim como apoio psicossocial. De forma sucinta, diz-lhe como se deve alimentar melhor, quais são os medicamentos que deve tomar, ajudando também a parar de fumar e aconselhando a encontrar maneiras de aliviar o stress e melhorar a saúde mental.

Neste tratamento, é importante incluir familiares e amigos que lhe poderão dar um maior apoio de modo a sentir-se melhor no seu dia-a-dia.

A equipa de reabilitação cardíaca é uma equipa multi e interdisciplinar, sendo constituída por cardiologistas, fisiatras, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos de cardiopneumologia, nutricionistas e psicólogos.

Classicamente, consiste em três fases, com a primeira a ter a ver com a reabilitação de doentes internados durante o evento agudo. A segunda fase refere-se a um programa de exercício supervisionado de duração habitual de 12 semanas e que deve ter início até 4 a 6 meses depois do ataque. Finalmente, a chamada fase III é geralmente um exercício realizado na comunidade e no contexto dos cuidados de saúde primários.

A reabilitação cardíaca é dirigida a doentes que já tiveram um enfarte agudo do miocárdio ou que sofrem de angina, mas também para os que fizeram um cateterismo com colocação de stent, ou que foram sujeitos a cirurgia cardiovascular, doentes com insuficiência cardíaca e com desfibrilhadores ou ressincronizadores, no pós-transplante cardíaco e com hipertensão pulmonar grave.

O treino físico, definido como uma actividade física estruturada, planeada e realizada por um longo período de tempo, tem como objetivo específico melhorar a condição física e a saúde global, sendo um dos componentes centrais da reabilitação cardíaca. O programa de exercício é prescrito de forma individual com base na patologia cardíaca e no nível de condição física avaliada por exames como a prova de esforço cardiorrespiratório, sendo esta a abordagem ideal para maximizar os benefícios e minimizar os riscos.

A frequência das sessões de exercício deve ser de pelo menos três a cinco horas por semana, de preferência todos os dias. O volume de treino recomendado é de pelo menos 30 minutos por dia, 5 dias por semana de actividade física de intensidade moderada, ou seja, 150 minutos por semana - ou de 15 minutos por dia, 5 dias por semana de intensidade intensa, ou seja, 75 minutos por semana. Pode ser ainda uma combinação de ambos os treinos, realizados em sessões com duração de pelo menos 10 minutos por dia.

A reabilitação cardíaca pode trazer muitos benefícios para a saúde a curto e longo prazo, incluindo o fortalecimento do coração e do corpo, alívio dos sintomas cardíacos, como angina de peito, aumentando a energia e a força para facilitar as actividades diárias e melhorar a qualidade de vida. Entre outros benefícios contam-se a redução do stress e a melhoria do humor, assim como o aumento da probabilidade de tomar os medicamentos que ajudam a diminuir o risco de futuros problemas cardíacos.

Fale com o seu médico assistente para perceber se pode ser incluído num programa de reabilitação cardíaca. São anos de vida feliz e saudável que pode ganhar.

Cardiologista no Centro do Coração dos Hospitais CUF em Lisboa

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