Ser de esquerda faz pessoas boas defenderem coisas más

A falência da bússola moral provocada pelo dogma político leva algumas pessoas a traírem os valores iluministas que dão à Humanidade a sua decência natural.
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Foi o físico e Nobel Steven Weinberg quem disse, em 1999, uma verdade que o jornalista Christopher Hitchens viria a transformar num pilar da sua crítica: "Com ou sem religião, as pessoas boas farão o bem e as pessoas más farão o mal. Mas, para que as pessoas boas façam coisas más, é necessária a religião." E em plena terceira década do século XXI, esta realidade, mesmo com o declínio das Igrejas no Ocidente, não desapareceu – mudou de pele.

O dogma, a infalibilidade e o fascínio pelo poder inquisitório encontraram um novo hospedeiro, numa certa esquerda radical que, perante os escombros morais do seu projeto social, derrotado no século passado, prefere a cegueira voluntária à admissão do erro.

É impossível olhar para a sociedade atual e não questionar: como chegámos a este abismo ético onde indivíduos que se autointitulam "humanistas" se tornam cúmplices abjetos da continuada repressão em Cuba, do regime dos ayatollahs no Irão ou da miséria na Nicarágua? Pela transformação da política numa "religião secular", como bem diagnosticou Raymond Aron em O Ópio dos Intelectuais (publicado logo em 1955). O marxismo não é uma teoria económica, é um sistema de fé totalitário que oferece tudo, da promessa de um paraíso terrestre (a utopia) a um bode expiatório para o mal (o capitalismo), passando por um clero académico encarregue de polir a narrativa.

Assim, quando a ideologia se torna fé, a realidade (essa, a que vivemos) passa a ser uma heresia a ser suprimida. Se o socialismo real produz invariavelmente fome e cadáveres, o crente não questiona a doutrina – culpa os "traidores" ou o "bloqueio". É uma dissonância cognitiva que raia a psicose: para não admitirem que a sua bússola moral está partida, estas "pessoas boas" preferem ignorar o sofrimento de milhões. O sofrimento humano resume-se então a um detalhe estatístico, porque o que importa é a preservação do dogma.

Este é ainda o subproduto de décadas de uma "Longa Marcha" realizada nas instituições Ocidentais. Escolas e meios de comunicação foram há muito capturados por uma hegemonia que substituiu o pensamento crítico por uma dita "clareza moral" – um eufemismo para a doutrinação. Isso hoje é bem patente no ódio patológico a figuras como Donald Trump, que funciona como uma lobotomia intelectual. Se Trump ordena a captura de um criminoso como Nicolás Maduro, a esquerda no seu todo, num espasmo de hipocrisia, corre a defender o tirano em nome de um "direito internacional" que nunca evocam para as vítimas da ditadura. O antiamericanismo tornou-se o seu único mandamento, mesmo que isso os obrigue a beijar (outra vez) a mão de déspotas sanguinários.

É de um narcisismo moral repugnante. Estas pessoas não amam os oprimidos que dizem defender. Apenas odeiam o sistema que lhes permite viver em liberdade. Defender Cuba enquanto bebem um café num bairro giro de Lisboa não é solidariedade, é um luxo que se torna obsceno porque essa mesma pessoa vive num regime que nunca a obrigará a comer pão racionado. A sua solidariedade é seletiva, pois desumaniza os venezuelanos, ou os cubanos, ou os que estiverem na mira no momento, tratando-os como meras peças descartáveis de um tabuleiro geopolítico.

A captura de Maduro pelos EUA pode ser, do ponto de vista do formalismo legal, muito discutível. E o futuro daquela nação permanece, tragicamente, incerto. Mas há uma clareza moral que nenhum jurista de conveniência pode ofuscar: um tirano sanguinário, responsável por tortura e miséria sistémica, foi finalmente posto atrás das grades. E isso, dê por onde der, é sempre uma excelente notícia para qualquer ser humano que ainda possua um átomo de decência.

Se queremos chegar a ser uma Humanidade minimamente iluminada, temos de recuperar o espírito iconoclasta de Hitchens – ele próprio um homem inicialmente de esquerda. É preciso denunciar a cobardia desta gente que, em nome de uma utopia morta, prefere validar a mensagem de autocratas do que dar o braço a torcer à realidade. Enquanto os deixarmos influenciar a opinião pública e as nossas crianças, continuaremos a produzir "pessoas boas" que marcham entusiasticamente ao lado do mal.

Editor do Diário de Notícias

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