Seitas não são brincadeira

Além do noticiário político, diretamente de Brasília, onde Lula da Silva tem de escolher, de entre os mais de 400 nomes que compõem a equipa de transição, de neoliberais a comunistas, os cerca de 35 ministros que farão parte do seu governo, e do noticiário desportivo, diretamente de Doha, onde Tite tem de decidir, de entre os 26 craques da seleção brasileira, de defesas operários a atacantes artistas, quais os 11 que jogam de início cada partida do Mundial, os jornais têm dedicado minúsculos pés de página ao noticiário cómico, diretamente da porta dos quartéis.

Em redor das casernas, grupos de bolsonaristas continuam, um mês depois das eleições, acampados a pedir um golpe militar que impeça o vencedor Lula de assumir o Planalto e eternize o derrotado Jair Bolsonaro no poder.

Como dos generais não tem chegado resposta satisfatória, os "patriotários" ensandecidos apelam até a forças extraterrestres. Em Porto Alegre, cidade onde no mês passado pilotos de aviões comerciais relataram ter visto brilhos não-identificados na noite, os bolsonaristas decidiram usar os respetivos telemóveis para fazer sinais de luzes na direção dos céus, na esperança de que uns quantos ET executem o golpe de Estado que os fardados terrenos resistem a executar.

O que é isto? E como se explica?

Em San Diego, nos Estados Unidos, os líderes espirituais Bonnie Nettles e Marshall Applewhite convenceram 39 pessoas a suicidarem-se, em 1997, por se acharem alienígenas imortais.

Na comunidade religiosa de Knutby, na Suécia, uma mulher, de nome Asa Waldau, conseguiu convencer os pares de que era "a noiva de Cristo". Por devoção cega às instruções dela, membros da comunidade mataram-se entre si, em 2004.

Desde que, algures no pico da pandemia, Bolsonaro, desdenhando da ciência, receitou hidroxicloroquina para combater a covid-19 e foi seguido bovinamente pelos seus acólitos, o bolsonarismo passou a ser analisado menos à luz da ciência política e mais à luz da psiquiatria.

Ou seja, Bolsonaro, mesmo partilhando a obsessão por sangue, a moral vazia e os escândalos económicos com, por exemplo, os seus ídolos Pinochet ou Stroessner, é menos comparável com os ditadores chileno e paraguaio e mais próximo de outro criminoso que escolheu a América do Sul como local do crime - o célebre fanático norte-americano Jim Jones.

Jones, enquanto líder do culto Templo do Povo, levou em 1978 os seus embrutecidos seguidores a um suicídio em massa na Guiana, país que faz fronteira com o Brasil. "Pouco antes de Jones decretar suicídio em massa, ele disse aos seguidores que "parassem com essa histeria", usando a mesma terminologia que Bolsonaro invocou para atacar medidas preventivas de Coronavírus", escreveu por aquela altura o investigador David Nemer, no site norte-americano Salon.

"Mas em vez de beber flavor-aid atado a cianeto para parar a histeria [como na tragédia da Guiana], Bolsonaro instou as pessoas a tomar hidroxicloroquina, uma droga que ainda não foi totalmente testada no tratamento da covid-19".

Os que sobreviveram ao vírus, sem vacina, mas com cloroquina, estão hoje em frente aos quartéis a comunicarem-se com marcianos fascistas.

Enquanto se forma um novo governo em Brasília e se persegue o tão ansiado hexa em Doha, os acampamentos de "bolsominions" parecem um interlúdio cómico no noticiário? Parecem. Mas, como San Diego, Knutby ou Guiana provaram, seitas não são brincadeira.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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