Quando estamos perante umas eleições presidenciais com o maior número de candidatos de sempre, é inevitável que o debate sobre o voto útil ganhe centralidade. Foram apresentadas 14 candidaturas, das quais 11 foram admitidas e constarão do boletim de voto; sete contam com apoio formal de partidos políticos, incluindo os maiores partidos à esquerda e à direita do sistema. Nunca houve tantas candidaturas presidenciais simultâneas, nem uma concorrência tão intensa pelo mesmo espaço eleitoral. Há quem entenda que o voto verdadeiramente útil é, desde logo, o voto no mal menor para travar um mal maior. Essa leitura existe e não é nova. Votar continua, ainda assim, a ser um ato político com consequências institucionais. É uma das marcas centrais da democracia representativa e muito difícil de relativizar num tempo em que esse direito é, em vários contextos, posto em causa ou simplesmente desvalorizado. Também por isso, há quem veja na lógica do mal menor uma forma legítima de voto útil, racional e estratégico. Pode até, para muitos, ser mesmo um voto por convicção.Por outro lado, não votar no mal menor na primeira volta não tem de ser confundido com um gesto irrefletido, emocional e irresponsável. A convicção implica também avaliar percursos, distinguir candidaturas com solidez institucional e assumir que cada eleitor vote em quem realmente se reveja e gostasse de ver em Belém.A responsabilidade de um voto por convicção obriga também a afastar exercícios de encenação, discursos inconsequentes ou meramente performativos. Uma eleição presidencial não é um espaço de espetáculo. O voto tem peso e deve ser tratado como tal.Nada disto elimina os riscos. Num quadro de dispersão, o voto por convicção na primeira volta pode reduzir probabilidades de afastar determinados campos políticos da fase decisiva. Reconhecer esse efeito faz parte da maturidade democrática: saber o que se afirma com o voto e aceitar as consequências dessa escolha.Este dilema seria, no entanto, menos relevante se os candidatos apoiados pelo maior partido da esquerda e pelo maior partido da direita conseguissem mobilizar e agregar todo o respetivo eleitorado. Se muitos eleitores admitem hoje outras opções, isso resulta da perda de capacidade de representação e de confiança nesses candidatos. Nas presidenciais, vota-se numa pessoa, num perfil e num percurso - não numa sigla partidária.Nesse sentido, ampliar as opções disponíveis não é, por si só, um problema democrático. Pode ser um sinal de vitalidade. Uma democracia empobrece quando obriga o eleitor a escolher sempre entre os mesmos polos, mesmo quando estes deixaram de responder às suas expectativas. Na primeira volta, essa abertura pode ser não apenas legítima, mas politicamente relevante. É neste quadro que os apelos ao voto útil devem ser lidos - e de forma desigual. À esquerda, a pressão é hoje maior, porque a fragmentação coloca um risco real de exclusão da segunda volta. António José Seguro defendeu que a dispersão de votos no seu espaço político pode inviabilizar a passagem de um candidato de centro-esquerda à segunda volta.Os eleitores que se revêm em candidaturas como as de Jorge Pinto, António Filipe ou Catarina Martins enfrentam um dilema estratégico claro: sem uma concentração significativa dos votos num candidato, a possibilidade de esse campo político chegar à segunda volta torna-se reduzida. O apelo à concentração assume aí um caráter quase existencial.À direita, o cenário é diferente. A existência de várias candidaturas com potencial competitivo - incluindo uma candidatura sem apoios partidários, como a de Henrique Gouveia e Melo, com capacidade de captar eleitorado de diferentes áreas políticas - reduz a pressão para uma concentração imediata do voto. O primeiro-ministro Luís Montenegro defendeu publicamente a concentração de votos em Luís Marques Mendes, apresentando essa escolha como forma de travar o avanço do populismo e garantir uma alternativa moderada forte. O debate desloca-se, assim, menos para a sobrevivência eleitoral e mais para a escolha de posicionamento e de perfil político. Ainda assim, convém não confundir momentos. A primeira volta não é o espaço natural do “mal menor”. A sua função é permitir escolhas, clarificar preferências e definir limites. Se isso significar que um dos polos não está representado, é essa a escolha dos portugueses. O povo é soberano.O voto útil, nesta fase, pode ser entendido como voto consciente, não como voto condicionado pelo medo ou pela antecipação do desfecho final. A divisão de águas surge depois. Na segunda volta, quando a escolha se reduz a duas opções, o voto muda inevitavelmente de natureza. Alguns votarão por convicção plena; outros votarão para impedir o que consideram inaceitável. Essa lógica faz parte do sistema. Mesmo assim, numa eleição presidencial, essa utilidade não é menor. É essencial.