Se não agora, quando?

Quando em julho passado foi anunciado o plano de desconfinamento, indexado à cobertura vacinal do país, foi-nos explicado que quando fosse atingida a meta dos 85% da população com vacinação completa entraríamos na última fase do processo de retorno à normalidade. Perante o anúncio, e a métrica concreta então definida, e não alterada desde então, qualquer um de nós poderia ser levado a crer que uma vez chegados a esse importante patamar a maioria das restrições impostas pela pandemia seriam levantadas e uma nova normalidade se tornaria realidade. Assim sendo, como se explica que, virtualmente atingida que está a marca dos 85% da população totalmente vacinada, se mantenham restrições como aquelas que ainda vigoram hoje nos estabelecimentos de ensino? Em que se traduziu, na prática, o atingir da meta anunciada, no que diz respeito ao dia-a-dia dos milhares de alunos das escolas portuguesas? Que resultado prático teve o enorme sucesso da nossa campanha de vacinação na vida escolar das crianças e dos adolescentes? Infelizmente, demasiado pouco.

Quando mais de 92% da população acima dos 12 anos está totalmente vacinada, e quando entre estes se encontram não só a totalidade dos mais vulneráveis como todos os professores que desejaram ser vacinados, por que razão continuam os nossos alunos a ter de usar máscara dentro da sala de aula e esta continua a ser recomendada no recreio "sempre que se verifiquem aglomerados de pessoas"? Quando existe um consenso científico sobre a baixíssima probabilidade de infeção através do contacto com superfícies ou objetos contaminados (fomites), como se justifica que se mantenha a proibição de partilha de material escolar ou a quarentena de livros das bibliotecas escolares? Quando a intensidade da pandemia em Portugal passa, segundo as designações oficiais, de "moderada" a "reduzida", que explicação pode ser encontrada para que as visitas de estudo continuem a ser limitadas? Quando os adultos podem frequentar esplanadas e discotecas dispensados do uso de máscara, qual a justificação para manter crianças em plena fase de desenvolvimento psíquico e social privadas da partilha e do convívio próximo com os seus pares? Como compatibilizar as imagens de espaços de diversão noturna a abarrotar de gente sem máscara com as de crianças sentadas numa sala de aula sujeitas à obrigatoriedade de, a partir dos 10 anos, "utilizar máscara comunitária certificada ou máscara cirúrgica"? E, já que estamos a falar de jovens, qual o racional para manter a obrigatoriedade do uso de máscara em "estruturas e respostas residenciais para crianças, jovens e pessoas com deficiência", tornando ainda mais penoso e isolado o dia-a-dia de tantos para quem a vida já trouxe tantas agruras? Nada disto tem uma justificação científica óbvia, e nada disto corresponde às medidas esperadas para quando atingíssemos a mítica marca dos 85% de cobertura vacinal.

Permitam-me que recorde: as vacinas contra a covid-19 são extremamente eficazes na prevenção das formas mais graves da doença, além de protegerem de forma significativa contra a infeção e, portanto, contra a transmissão do vírus. As regras e limitações impostas durante os picos da pandemia, inclusivamente nas escolas, tiveram um papel fundamental no controlo da atividade pandémica e na prevenção do colapso dos serviços de saúde. Por mais perturbadoras que tenham sido, foram compreendidas pela generalidade das pessoas como sendo necessárias para conter a transmissão do vírus. Mas o momento presente é, felizmente, e graças às vacinas, outro. O vírus não desapareceu, e provavelmente não vai desaparecer, mas já não tem os impactos na vida e na saúde das pessoas que teve antes de as vacinas estarem disponíveis.

De que estamos então à espera para devolver a normalidade à vida dos mais jovens? Que marca ainda é necessário atingir para que isso aconteça, quando nos encontramos na posição privilegiada de termos vacinada praticamente toda a população elegível para o ser? Se não é agora que as nossas crianças podem voltar a viver a escola como ela deve ser vivida, quando será?

Investigador principal do iMM

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