Século de prodígios

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A atribuição do Prémio Vasco Graça Moura de cidadania cultural a Onésimo Teotónio de Almeida representa o reconhecimento de uma ação persistente ao longo dos anos na defesa da língua e da cultura portuguesas nos Estado Unidos da América.

Os Açores, de onde é natural, foram o ponto de partida ideal para uma reflexão cultural de carácter universalista. A norte da Macaronésia, no centro na dimensão atlântica, as ilhas açorianas constituem o paradigma da situação portuguesa no mundo, aberta à aventura da diferença. “A obsessão da portugalidade”, de que nos tem falado, corresponde a um movimento constante de procura das raízes e das suas virtualidades - compreendendo as limitações e percebendo o que é único e original. Longe das glorificações unilaterais ou dos elogios fora da realidade, do que se trata no magistério do investigador é de uma análise rigorosa do contributo original dos portugueses na História do mundo.

Neste sentido, a cidadania cultural assume uma importância crucial, uma vez que mercê de um esclarecimento cabal sobre as condições concretas de vida de Portugal e dos portugueses podemos assumir claramente, sem complexos, nem ressentimentos, as originalidades e os contributos positivos. Procurando novos argumentos, estamos perante uma grande generosidade intelectual e cívica que merece especial reconhecimento.

Lembremo-nos da análise que fez em O Século dos Prodígios (Quetzal, 2018) de figuras marcantes como Duarte Pacheco Pereira, Pedro Nunes, D. João de Castro e Garcia de Orta. Como foi importante a “experiência madre de todas as cousas” ou o “saber de experiências feito” na mudança de atitude que sucedeu ao período da expansão portuguesa? Camões falou do mundo enquanto humanista, Sá de Miranda anunciou uma mudança a partir do que somos, Pedro Nunes e D. João de Castro conheciam bem o mundo clássico. E Jaime Cortesão falou dos portugueses como “criadores da ciência náutica, que permitiu a navegação oceânica e a expansão da Europa em todo o mundo. Eles criaram o navio próprio para os Descobrimentos ao longo das costas de África e da América - a caravela; eles adaptaram o astrolábio aos usos da navegação e formularam pela primeira vez os métodos e regimentos para determinar a posição das descobertas; eles traçaram novas estradas ao longo dos oceanos, fixaram nos mapas o contorno dos mundos…”.

E assim, num caminho paulatino, numa tensão entre os conceitos tradicionais e modernos, aos portugueses coube o mérito de terem experimentado as novas realidades, dando-as a conhecer. Mesmo considerando a política do segredo, dos tempos de coruja e de falcão do Príncipe Perfeito, a verdade é que o avanço da ciência pura foi algo precário entre nós, o que não desmerece os resultados alcançados.

Damos um exemplo da reflexão serena e rigorosa de Onésimo Teotónio de Almeida para procurar demonstrar a virtualidade de alguém que projetou a importância da cultura da língua portuguesa sem ter necessidade de empolar essa influência ou de a glorificar para além da verdade. Como ensinou Eduardo Lourenço, somos nós mesmos, com uma História rica, com altos e baixos e uma responsabilidade presente inequívoca, protegendo-nos das tentações maximalistas e das depressões extemporâneas. “O Portugal do século XVI é, sem dúvida, um palco maravilhoso”, onde presenciamos um “século de prodígios”. E é essa perspetiva que nos permite entender que o estímulo do passado se junta à compreensão cívica do presente.

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

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