Sahel, próximo Afeganistão em África?

A interrogação do título é do Menas Associates em menas.co.uk, mas também poderia ser este título da RFI, "Uma dezena de "turistas" russos interpelados numa "zona vermelha" no norte do Chade", o que vai também ao encontro do nosso ponto de hoje, expresso no título.

Desde logo, há um cenário de balcanização, sobretudo do Sahel Ocidental, que também equivale ao G5-Sahel (Burkina Faso, Mali, Mauritânia, Níger e Chade), com Mali, Níger e Chade com governos, um frágil e dois à experiência. A Mauritânia também afundada num "caso Sócrates" versão ex-presidente Mohamed Ould Abdel Aziz, condenado a prisão e também afundado nos recursos de excepção, podem alastrar a todo o tecido político mauritaniano, já que tudo é tentacular na gestão da coisa pública. Outra balcanização é a dos grupos jihadistas que mantêm casas-mãe na Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (AQMI) e "estado islâmico", que se confundem e fomentam também a formação de milícias de defesa tribal, balcanizando ainda mais e gerindo equilíbrios, qual estado dentro do Estado.

Outra recente ruptura, cuja França é o protagonista ao terminar a Operação Barkhane, abrindo o ângulo para os russos, catapulta o Mali e o Sahel Ocidental para a ilusão da perda de controlo por parte do ex-colonizador no seu espaço de influência. Precisamente influência é que é o verdadeiro poder e a Rússia não vai invadir o Sahel com tropas, vai antes enviar dúzias de conselheiros militares, eufemismo para Intelligence, entrando a sério no verdadeiro jogo que todos lá estão a fazer desde o dia um, tratando-se o jogo de influência que, só se consegue, conseguindo a informação antes do outro. Esta certeza também projecta o G5-Sahel para uma guerra fria regional, no amplo quadro africano das "guerras de influência" e mini-guerras-frias.

Esta guerra fria vai também ela interferir num outro debate, o da sobrevivência da NATO e do seu potencial caminho de controlo absoluto do Atlântico Norte, ou seja, assumindo de facto intervenção até à linha do equador, para além de manter também ampla área estratégica de Vancouver a Vladivostoque.

No jogo dos equilíbrios, uma intervenção da NATO no Sahel, em momento de crescente influência russa no Mali, poderia dar razões à Rússia para promover o seu "pacto de Varsóvia saheliano", um retrocesso na narrativa de vitória que vem de 1991. Ou seja, esta condicionante pesará no processo de decisão da Aliança, por outra razão adicional e consequente do cenário anterior. Promovendo os russos o seu "pacto de Varsóvia saheliano", abria também ângulo para que a China promovesse o seu "grupo dos não alinhados africano". Outro retrocesso.

Uma vez mais, tudo dependerá do registo da evolução das dinâmicas jihadistas, que ganharam novos hábitos durante a pandemia e terão uma palavra a dizer, em termos de modus operandi, no pós-pandemia, realidade ainda desconhecida. Há que esperar até 2024, certamente ano criativo e de muitos excessos!

Politólogo/arabista
www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG