Ninharia que não vai à mesa dos debates na nossa campanha eleitoral, mas que está na mesa de Bruxelas: a Comissão Europeia acaba de propor que a energia nuclear e o gás sejam considerados "energias verdes". A proposta é para ser levada a sério, tanto mais que entre os seus defensores, ainda que por razões diferentes, estão a França e a Alemanha..Diante deste verde-escuro, é claro que cada país parte de situações muito diferentes, mas a União não pode retroceder na sua liderança mundial em energias renováveis - as únicas verdes. Os casos específicos da França (que depende a 70% da energia nuclear que produz) ou da Alemanha (que defende um maior uso do gás, enquanto não produz energias renováveis que compensem o abate das suas centrais nucleares) não podem ser pretexto para um colossal desvio de fundos destinados a financiar o investimento em verdadeiras energias limpas. Estudos da OCDE revelam, aliás, que as ajudas públicas às energias renováveis são seis vezes inferiores às destinadas aos combustíveis fósseis..A energia nuclear não é limpa nem segura: extração, tratamento e transporte de urânio comportam elevados riscos para a saúde; e são incalculáveis os custos de armazenamento dos resíduos radioativos, em estritas condições de segurança, durante milhares de anos - penalizando gerações futuras..Em Portugal, a opção pelo nuclear morreu à nascença, naquela manhã de 15 de março de 1976, quando os sinos de Ferrel (Peniche) tocaram a rebate e o povo inundou o largo da Igreja da Senhora da Guia. Brandiram-se forquilhas e varapaus, e a multidão avançou sobre o local onde há meses decorriam os trabalhos preliminares para a construção de uma central nuclear, um projeto da então Companhia Portuguesa de Eletricidade. Solidários, milhares de jovens, alguns dos quais hoje investidos de responsabilidade política, acampámos por lá nesse verão ainda quente da revolução. "Somos todos de Ferrel": há 46 anos, pela primeira vez em democracia, as questões ambientais chegavam a terreiro, e uma geração inteira aprendia a cantar "Rosalinda, se tu fores à praia, cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar"..Uma das maiores mudanças nas nossas vidas está a acontecer no campo das energias. A diferença para outras revoluções industriais é que esta já não está para minas nem poços de petróleo. A mudança depende de algo tão abundante em Portugal como o sol e o vento e de como estes dons da mãe natureza bafejam o nosso território..A produção de eletricidade com energias renováveis já é uma alternativa esmagadoramente competitiva: sim, é preciso desenvolver as tecnologias para seu armazenamento, da mesma forma que é preciso criar ou aperfeiçoar as interconexões entre países, para as quais os fundos (Next Generation) da Próxima Geração são cruciais. É aqui que Portugal pode jogar uma grande oportunidade, tornando-se um dos principais parceiros europeus em produção, armazenamento e exportação de energias renováveis. Basta, para tal, retomar e aprofundar a trajetória de investimento iniciada há 15 anos e interrompida nos anos da troika, bem como a modificação, pela Comissão Europeia, do mecanismo de tarifação da eletricidade, concebido num contexto muito diferente do atual, para transferir em benefício dos consumidores a crescente redução de custos das energias renováveis. Até lá, "Rosalinda, tem cuidado"!.Jornalista