Rio parado

A vitória de Rui Rio nas eleições internas do PSD, além de sintomática do crescente afastamento entre os dirigentes e as bases, é ainda resultado da recomposição política no espaço da direita.

Ao puxar o partido para a direita, Passos Coelho desfez o equilíbrio inclusivo que antes vigorava entre as várias correntes internas. Após a sua saída, já não foi possível conciliá-las.

O resultado mais evidente foi a criação e crescimento de novos partidos no espaço político da direita. Outro foi a balcanização interna do PSD.

Rui Rio teve, assim, de conviver desde sempre com um partido dividido. Mas não é menos verdade que as suas características pessoais e políticas, em vez de contribuírem para resolver, agravaram o problema.

Com um estilo conflituoso e autoritário, nunca se preocupou em unir o partido. Pelo contrário, rodeando-se apenas dos seus mais fiéis, hostilizou todos os que esboçaram a mais pequena crítica e alienou os melhores quadros.

Errático, foi colecionando contradições.

A sua principal qualidade junto do eleitorado, a espontaneidade, acabou por evidenciar a falta de um pensamento estruturado sobre quase todos os temas. Diz o que pensa, mas pensa coisas diferentes consoante os dias. Sempre com a mesma certeza definitiva.

Se em 2019 dizia taxativamente "temos professores a mais", no ano seguinte criticava a falta dramática de professores devido à pouca atratividade da carreira. Se em 2019 propunha um método para a subida do salário mínimo até ao final da legislatura, já este ano opunha-se a subidas administrativas do salário mínimo, acrescentando "já o ando a dizer há muitos anos".

Celebrou um acordo de governação para os Açores - a maior mancha no seu curriculum como líder do PSD - e admitiu negociar com Ventura a nível nacional, para agora dizer que nem pensar, que não admite essa negociação.

Confundindo posicionamento tático com ideologia, não hesitou em chocar o partido ao defender que o PSD não é de direita, sabendo bem que essa não é a identidade do partido, dos militantes ou sequer do seu eleitorado. Se Rui Rio realmente acredita que a ideologia do PSD é de centro, será apenas porque ficou fixado mentalmente num tempo que há muito passou (e o seu recurso a Sá Carneiro para justificar essa posição apenas o confirma).

Mesmo o seu próprio posicionamento político só por equívoco pode ser colocado ao centro. A sua doutrina personalista é muito mais democrata-cristã do que social-democrata e, não por acaso, faz parte dos princípios do CDS desde a sua fundação.

O PSD que reelegeu Rio não é, por isso, o do centro político, mas o dos militantes mais conservadores, avessos à modernidade e liberalismo que Rangel prometia.

Os dirigentes que estiveram contra ele sabem que pagarão caro. Rui Rio não perdoa. Ficará com um PSD mais paroquial, mas esse é o partido que lhe é leal e que ele realmente representa.

Mas todos os votos valem o mesmo e Rui Rio é, sem dúvida, o legítimo represente da alternativa a António Costa.

Será entre estes dois protagonistas que os portugueses escolherão para conduzir os destinos do país. Porque, por muitas surpresas que a política nos reserve, uma coisa sabemos: um deles será o nosso próximo Primeiro-Ministro.

17 valores - Eduardo Ferro Rodrigues

Despediu-se da política ativa.

Iniciou a sua vida política antes do 25 de abril, destacando-se como líder estudantil.

Terminou-a como Presidente da Assembleia da República, reeleito com votos da esquerda à direita.

Sempre coerente e defensor intransigente da democracia.

É o maior elogio que lhe podemos fazer: um grande democrata.

Eurodeputado

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