A capital dos Estados Unidos da América, a nação mais rica do mundo, é também a cidade onde o rendimento das famílias é o mais alto desse país – em média cada agregado recebe 93 mil euros por ano. Essa média não é ainda mais elevada, entre outras coisas, porque no distrito da capital dos EUA, Washington D.C., 14% da população, mais de 90 mil pessoas, vive abaixo do limiar da pobreza, apesar de o PIB per capita ser o maior do país. Pior: na capital dos EUA, o Estado que dita as regras do capitalismo mundial, cerca de 80 pessoas em cada 10 mil habitantes é sem-abrigo. Isto quer dizer que vivem nas ruas, em tendas, dentro de carros velhos ou em abrigos de caridade institucionalizada mais de 5600 almas, incluindo famílias inteiras. São gente que, na miséria andrajosa com que vagueia, choca com quem sai em marcha acelerada das suas casas de luxo. São gente que atrapalha a circulação dos altos funcionários políticos. São gente que desfigura a paisagem vista pela janela de um automóvel topo de gama. São gente que embaraça empresários alojados em hotéis de cinco estrelas. São gente que agonia o apetite aos clientes dos 26 restaurantes da região que exibem estrelas Michelin. Ainda pior: na capital dos Estados Unidos da América, o país que pretende ditar a ordem mundial, mais de um terço destas pessoas sem-abrigo que vive em família, tal como 10% dos adultos solteiros que estão nesse desamparo, tem emprego, cumpre horário, realiza tarefas, produz riqueza. Porém, o salário destes marginalizados é tão baixo que não chega para pagar uma habitação, um quarto, um canto qualquer. Um dos principais fatores que estão na base deste problema é a falta de casas a preços acessíveis, com as rendas das habitações a aumentarem a um ritmo enorme. Por isso, sobe o número de famílias despejadas. Há um medidor da desigualdade social de que muitos economistas gostam, o quociente de Gini. A escala vai de zero a 100%. Zero significa uma distribuição da riqueza matematicamente igualitária entre a população, 100% significa que um único indivíduo ficou com toda a riqueza desse grupo. O índice de Gini médio dos EUA em 2023 foi de 41,8%. Em Washington D.C. foi de 59,4%. (Já agora, em Portugal, nesse ano, foi de 31,9% - é mau, mas bem melhor que no país mais rico do mundo). A situação dos sem-abrigo em Washington D.C. é uma acusação pungente, visível, contra a maldade intrínseca de um sistema capitalista-liberal que deixa cada vez mais gente para trás. Porém, como disseram as notícias do dia 11 de agosto, o presidente Donald Trump que, na Casa Branca desta mesma cidade de Washington, proclama a vontade de ganhar o Nobel da Paz, resolveu chamar a tropa e correr com os sem-abrigo da cidade – assim como uma dona de casa aflita que varre o lixo para debaixo do tapete... O problema do sem-abrigo na América é bem velho, não é propriamente uma novidade trumpista – antes dele (agora, sei lá!) chamavam a esta desigualdade estrutural, onde há pessoas equiparáveis a lixo, de “democracia liberal”... Seja qual for o nome, a decisão de Trump de expulsar os sem-abrigo de Washington deve basear-se num conceito de democracia também adotado pelo autarca socialista, em Loures, Ricardo Leão, que esta semana voltou a tentar varrer para “debaixo do tapete”, para fora de Loures, as famílias pobres, trabalhadoras, do bairro do Talude. Ai democracia! Ai liberdade!... Jornalista