‘Requiem’ por uma amiga

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Eu tive os meus mortos e deixei-os ir

Rilke, ‘Requiem’ por Uma Amiga

Nasci com o ciclone de 1941

Maria Alzira Seixo “Autobiografia”

in JL 24/10 - 6/11/2007

O turbilhão em que Maria Alzira Seixo nos envolvia, fôssemos colegas ou amigos, era suficiente para, ao mesmo tempo, nos abalar e nos estimular. Abalar as nossas certezas e ideias preconcebidas, estimular a nossa capacidade crítica, mesmo que tivéssemos de passar pelo confronto. O ciclone de 1941 não se limitou a destruir, pois deixou boas sementes.

Hoje estivemos juntos para a deixar ir. A sua pessoa inteira já nos deixara há alguns anos, a doença foi-a diminuindo vorazmente, mas a perda da morte é o choque final que não conseguimos olhar de frente, como o sol.

Ao pleno sol de Odeceixe ela caminhava altivamente e pela tardinha vinha ter connosco, ao nosso terraço, e falava das suas leituras, das suas descobertas, das suas certezas. Às vezes, apetecia-me opor-me a tantas certezas, mas ela tinha uma argumentação cerrada e sempre ao ataque, que fundamentava com saber e eloquência.

Ela vivia também no amor da literatura, uma coisa que não sei se ainda é suficientemente partilhada por nós. De todo o aparato estruturalista, emergia, como no seu mestre Barthes, o “prazer do texto”, esse gozo sereno da leitura e da sábia e lenta apropriação do que lemos. Essas tardes enormes de leitura ao sol, junto ao mar, sem internet e sem telefones, entregues à flauta de Hamelin dos nossos escritores preferidos, são inesquecíveis nestes tempos de velocidades sem nexo. Ler a Guerra e Paz ou a Recherche, sem levantar os olhos de Tolstoi e de Proust até ao pôr do Sol.

A Maria Alzira não era uma mestra mecanizada pelo estruturalismo, era uma fina e cultíssima analista da literatura, do romance em primeiro lugar, mas sem deixar de ter um gosto marcado pela poesia, que aliás cultivou. Os seus poemas surgiram publicados em pequenas edições, que seria interessante hoje reunir.

Ao contrário do que afirma, num seu poema Elizabeth Bishop, a arte de perder não é fácil de aprender. Nesta fase das nossas vidas perdemos os nossos companheiros de geração e aqueles, um pouco mais velhos, que foram afinal nossos mestres, mesmo que nos tenhamos depois afastado das suas lições, porque nós crescemos e eles também.

Perder pessoas é perder o nosso mundo, o nosso quadro de referências, a nossa memória e a nossa ambição. O mundo vai escurecendo à nossa frente e o novo que emerge enche-nos de pavor. Que monstro está agora a nascer em Belém, pergunta Yeats num poema. Não sabemos. Pode ser Átila ou Jesus Cristo.

Mas nós somos responsáveis pelo mundo que criamos ou que deixamos acontecer. Maria Alzira Seixo sempre esteve do lado dos criadores.

Diplomata e escritor

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