Repensar as Nações Unidas

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Robert D. Kaplan, repórter, académico e ensaísta americano autor de livros como Fantasmas dos Balcãs ou A vingança da Geografia, está convencido de que a ONU é hoje uma sombra do passado, em perda acelerada de influência. Deixou de ser o palco - às vezes com momentos únicos como Krutschev de sapato na mão ou Fidel a discursar horas e horas - principal do debate político internacional, ignorado pelos governantes, mas também pelas opiniões públicas. E este desalento com a organização é expresso no seu último livro, Terra Desolada, agora editado em Portugal, pretexto para uma recente entrevista publicada no DN, e em que o tema principal foi a possibilidade de uma guerra entre os Estados Unidos e a China, como sobressaiu pelo título escolhido: “Uma guerra no Pacífico mudaria o nosso mundo muito mais dramaticamente do que a guerra na Ucrânia”.

Recordo que uma eventual guerra no Pacífico envolveria dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, tal como a guerra na Ucrânia, resultado do ataque russo de 2022, envolve, como invasor, um outro membro permanente do Conselho de Segurança. E como se viu ao longo dos tempos, a organização criada em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, não tem soluções para as crises em que os chamados P5 (que incluem ainda o Reino Unido e a França) são os protagonistas, pois têm sempre o direito de veto como último recurso.

“Quando era criança, e já tenho 73 anos, nos Estados Unidos toda a gente conhecia o nome do secretário-geral da ONU. O secretário-geral da ONU era uma pessoa famosa. Ora, hoje, nos Estados Unidos, ninguém sabe quem é o secretário-geral da ONU. Porquê? Vários motivos. A ONU foi essencialmente suplantada por outras organizações globais. Davos não existia quando eu era mais novo. A União Europeia não estava tão desenvolvida quando eu era mais novo. A ONU era tudo o que existia em termos de um sonho de um mundo globalmente unido. O interessante é que, por exemplo, observando a guerra de Gaza, havia uma coisa absolutamente ausente, à qual ninguém dava atenção em nenhum dos lados. Essa coisa era a Organização das Nações Unidas e, em certa medida, a Europa. Ambos os lados, os israelitas e os palestinianos, estavam conscientes do que Washington estava a fazer. Estavam conscientes do que a Rússia e a China estavam a fazer. Mas a ONU estava totalmente ausente. É claro que ela fez muitas declarações, mas não tiveram qualquer efeito”, afirmou Kaplan na tal entrevista. Nova-iorquino, o ensaísta nasceu em 1953, um ano depois de o edifício-sede das Nações Unidas ter sido completado, em Manhattan, o que torna a sua análise também um testemunho pessoal.

Não se veja aqui uma crítica de Kaplan dirigida a António Guterres. Quando refere o secretário-geral é o cargo, não a pessoa que o ocupa. Antes do português, foi o sul-coreano Ban Ki-moon o secretário-geral, que também não deveria ser um nome na boca de qualquer americano. E Guterres, tal como Ban, esforçou-se sempre por ser bastante vocal, até perante a Rússia ou os Estados Unidos. Mas o sucesso de um secretário-geral é definido pelo compromisso dos P5 com a sua ação. E esse tem sido escasso. Basta pensar como usaram o veto, velho uso, para proteger aliados, como os russos com a Síria, até mudar o regime em Damasco, ou os americanos em relação a Israel.

Numa outra entrevista recente do DN, com João Vale de Almeida, o tema ONU foi também abordado. O português, que chegou a ser embaixador da UE nas Nações Unidas, não tem dúvidas de que tudo depende do entendimento entre os P5: “As pessoas muitas vezes dizem: Ah, o secretário-geral, por que é que ele não faz mais? O secretário-geral tem o poder que o Conselho de Segurança lhe dá, e que a Assembleia-Geral lhe dá, mas sobretudo o Conselho de Segurança. Então não podemos pedir ao secretário-geral que faça omeletes sem ovos. E, de facto, o Conselho de Segurança não está a dar esse mandato, claro, e esse apoio e essa solidez de que o secretário-geral precisa. Portanto, eu ainda acredito nas Nações Unidas, elas têm de ser reformadas e António Guterres tem feito muito para as reformar, mas ele tem de contar com os Estados-membros. As Nações Unidas serão o que os Estados-membros das Nações Unidas quiserem que elas sejam. Agora, se temos os P5, que não se entendem; se temos os P5, que violam a Carta; se temos os P5, que retiram o financiamento, como está a fazer agora o Sr. Trump, como é que se quer que a ONU funcione? Agora, antes de deitarmos fora o bebé com a água do banho, vejamos que alternativas é que temos e se elas são melhores do que as Nações Unidas. Não me parece que haja, no mercado, nenhuma alternativa a não ser um divórcio total entre as Nações.”

Parece agora não ser o melhor momento para falar do futuro da ONU, basta observar o tom do debate no Conselho de Segurança sobre a intervenção americana na Venezuela, mas em algum momento algo terá de ser feito e muito a sério, até porque Guterres está a finalizar o segundo mandato e vai ser eleito este ano um sucessor ou sucessora. E os P5 vão ter de se entender sobre o novo nome.

Portugal, defensor do multilateralismo e candidato a um assento não-permanente no Conselho de Segurança para o biénio 2027-2028, é um dos interessados em que o debate sobre o futuro da ONU se faça, atualizando-a para lhe dar força renovada. Para que deixe de refletir o mundo de 1945 (os P5 são os vencedores da Segunda Guerra Mundial) e reflita o século XXI. Faz, por exemplo, sentido Índia e Brasil não estarem no Conselho de Segurança em permanência? Assim como faltar um país a representar África?

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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