Reagan e Trump: o “actor de segunda” e o “empreiteiro”

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Trump, Reagan e o Partido Republicano de um e de outro, ou com um e com outro, é um tema quente na América; um tema que, depois do primeiro ano da segunda Administração Trump, vale a pena discutir.

Mas discutir aberta e objectivamente as diferenças entre aquele a quem chamavam “actor de segunda”, mas passaram a chamar “estadista”, perante o “empreiteiro de Queens” parece ser uma missão impossível para a maioria dos comentadores, incluindo os locais.

A esquerda e o centro ficaram tristes, quase desvairados, com a eleição de Reagan em 4 de Novembro de 1980, com 51% do voto popular, contra os 41% de Jimmy Carter, ganhando em 44 Estados da União. O mapa eleitoral era uma maré vermelha. O movimento que levou Reagan à vitória começara numa derrota do Partido Republicano quase tão grande como a vitória de Reagan em 1980. A derrota foi de Barry Goldwater em 3 de Novembro de 1964, contra Lyndon Johnson, e o caminho para a vitória passou, em 1968, pela Southern Strategy de Nixon, inspirada por Kevin Phillips, que virou o Sul para os Republicanos, ajudado pelo facto de Johnson, em 1965, ter votado a Lei dos Direitos Civis.

Mas, o que foi verdadeiramente decisivo para a vitória de Reagan foi a revolução cultural conservadora, feita a partir da sociedade civil, graças aos recursos de fundações e think-tanks como a Heritage Foundation, o American Enterprise Institute, o Hudson Institute. Foram estas instituições que prepararam as ideias do reaganismo - firmeza anticomunista, defesa dos valores da religião e da família, liberdade económica, baixa de impostos e combate aos abusos dos sindicatos - que, de resto, não eram muito diferentes das propostas de Goldwater.

Houve uma redução de impostos e um reforço da Defesa para contemplar a Strategic Defense Iniciative (SDI) ou Guerra das Estrelas, um bluff que levou Gorbachev, na resposta, a autodestruir o Estado Soviético, retirando o medo do sistema.

No tempo de Reagan, o mundo era bipolar e havia uma URSS que dominava partidos comunistas através dos quais queria impor a sua ideologia e o seu modelo por toda a parte. Hoje não; e é essa a diferença decisiva para comparar e julgar Reagan e Trump.

Hoje há uma ordem de grandes potências - EUA, China, Índia, Rússia - que não querem exportar o seu modelo de regime, mas defender os seus interesses nacionais e regionais.

Reagan era pela economia de mercado e, no seu tempo, até por oposição ao estatalismo soviético, a globalização justificava-se; mas a partir do fim da Guerra Fria, quando o mundo se tornou um gigantesco mercado único, levou ao globalismo, ao predomínio do capital financeiro sobre o capital industrial e à desindustrialização na Europa e nos EUA, o que faz com que a política da Direita seja hoje outra - tarifas, proteccionismo, independência energética -, a política de Trump.

É no estilo e no tempo de cada um que está a maior diferença: Reagan podia ser um gentleman, Trump teria de ser sempre um provocador, de resto como muitos chefes da direita popular.

Quanto aos valores religiosos e familiares - o mais importante em política interna - se Reagan era pela família, contra o aborto, contra a eutanásia e contra o wokismo, que só mais tarde apareceria com este nome, mas que já lá estava nos programas da Esquerda, Trump, apesar da incorrecção pessoal, também o é. E Trump, tal como Reagan, também é internacionalmente realista.

Outra coisa muito importante: ambos são odiados pela esquerda que não lhes perdoa a Agenda política - nem, sobretudo, que não tenham medo dela.

Politólogo e escritor

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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