Reabriram as livrarias

As livrarias lisboetas são as primeiras andorinhas. Reabertas as livrarias e os alfarrabistas respiramos um pouco melhor nesta primavera que tarda. Lisboa foi sempre uma cidade de livrarias, um dos seus atrativos, um pretexto para passear, ainda que os cafés continuem fechados. Nelas encontraremos esse porto de abrigo de que tantas vezes sentimos falta numa urbe. Não sei porque as fecharam, pois nas livrarias quase nunca há ninguém, não há muito risco de contágio, mas, enfim, a pandemia tem destes paradoxos.

Mas vamos sentir a falta de algumas que ficaram pelo caminho e nos deixam com saudade, como a de Bernardo Trindade, a Campos Trindade, na Rua do Alecrim, 44. Era a livraria de seu pai, Tarcísio Trindade, poeta e amante da música. Bernardo leva toda a sua vida nisto dos livros, pois ajudava o pai depois de sair da escola. Recorda que muitos escritores apareciam por ali em tertúlia informal, por exemplo, o poeta Ruy Cinatti, cantor de Timor, que se sentava na poltrona de couro para passar a tarde em amena conversa. Bernardo é também um ilustre cozinheiro e o mistério de tantas velhas garrafas de Porto e vinhos escolhidos, raros, que há na livraria é porque os usa - revelou-me - nos almoços e jantares que prepara de vez em quando para os seus amigos mais próximos. A cozinha é o seu Violino de Ingres.

Outra que fechou foi a Fabula Urbis, de João Pimentel, que estava um pouco mais acima da Sé. Era uma livraria sobre Lisboa e tinha também a melhor seleção de música portuguesa.

Mas restam muitas ainda e bem vivas. Hoje já podemos procurar um livro na Palavra de Viajante, na Rua de São Bento, onde sempre encontramos alguma novidade que parece chegar aqui antes de ao resto do mundo. É uma pura tentação, com livros de todos os países e cidades e em quatro ou cinco idiomas. Também há que ir à livraria Ler, a antiga livraria de Luís Alves, agora a cargo do filho, no Jardim da Parada, onde sempre encontramos novidades, surpresas e uma grande coleção de BD (banda desenhada). Ou passarmos pelo alfarrabista Sílvio, na Rua da Escola Politécnica; até à do Campo de Santa Clara, o Martinho, um livreiro veterano, de raça, amável, que sempre nos reserva algum volume especial e onde até podemos partilhar uma ginjinha. E a de António Trindade, também na Rua do Alecrim, que é já uma loja histórica, o que a preserva da especulação imobiliária que se estende pelo centro de Lisboa, desalojando livreiros e comércios de toda a vida em benefício de hotéis ou grandes cadeias de lojas. Mais afastada do centro, a Leituria que, numa acertada joint venture de Vítor Rodrigues com o café A Espuma dos Dias (clara homenagem a Boris Vian), na Rua José Estêvão, tem um piano, fotografias nas paredes e uma cave onde nos podemos consolar nas estantes repletas de livros sempre interessantes, em diferentes idiomas.

E outra singularidade olisiponense: que outra cidade tem uma livraria dedicada somente à poesia? Pois na Rua de São Ciro, nas traseiras da Basílica da Estrela, temos a Poesia Incompleta. Ali encontraremos todos os poetas do mundo, conversaremos sobre poesia, traduções, edições perdidas, até a do recital que Evgeny Evtuchenko deu em Lisboa em 1967, adaptado ao português pelo inefável Fernando Assis Pacheco que, além de poeta, conhecia todas as tascas de Espanha e honrou os seus antepassados galegos no seu livro Trabalhos e Paixões de Benito Prada. Ali nos encontrámos, por casualidade, com Nuno Moura, que tem uma pequena editora, Douda Correria, onde vai publicando livros excelentes, como um grande e generoso mecenas de poetas atuais. E que escreveu um livro incrível, Terceira.

Se pudermos circular entre concelhos, poderemos chegar a Cascais onde, ainda que tenha deixado há muitos anos de ser um lugar de repouso, ainda nos resta a Livraria Galileu. Já cumpriu 48 anos de trabalho desde que Nuno Oliveira a abriu depois de ter criado uma cooperativa de livros encerrada pela polícia política de Salazar. Por essa livraria, que torneava a censura de então, passariam regularmente escritores como Alexandre O'Neill ou Vasco Graça Moura, para conversar ou para procurar na sua cave esses tesouros esquecidos, um lugar para nos perdermos e passar a manhã a rebuscar entre os milhares de livros.

Em tempos de Amazon e Kindle temos de reivindicar o livro em papel, visível, que cheira a tinta ou a bafio, conforme a sua idade, que se pode manusear e anotar e se pode emprestar e perder ("livro emprestado, perdido ou estragado", dizem os espanhóis). E, além do mais, as livrarias dão o tom cultural de uma cidade, não são só os museus públicos que o fazem. Em Lisboa há ainda bastantes, não quero dizer que sobrevivem, mas é triste - para não dizer irritante - que ninguém nos poderes administrativos as proteja. Os que as mantêm são heróis, são os guardiães da linguagem que, ao fim e ao cabo, é o que nos distingue como sociedade humana.

Sem esquecer os outros guardiães da linguagem, os bibliotecários da rede de Lisboa, BLX, onde já podemos pedir livros ainda que tardemos a poder entrar nelas. Recordo que a biblioteca do Palácio Galveias é provavelmente a mais bela de toda a Península, e a do antigo Cinema Europa, em Campo de Ourique, uma das mais acolhedoras, enquanto a de Camões oferece as melhores vistas que alguma biblioteca pública já teve.

Ainda que não entremos em todas as livrarias, saber que estão ali, abertas, disponíveis, assim como saber que poderemos voltar às feiras da ladra, da Rua Anchieta, do Jardim Constantino ou de Paço de Arcos, em busca do livro perdido, dá-nos um certo ânimo para aguentar este confinamento que parece não acabar nunca. A polis necessita das livrarias e das bibliotecas para ser uma verdadeira polis.

Advogado e escritor espanhol

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