Razão e emoção ou elogio dos matizes

Ser, como eu sou, na razão um radical e no temperamento um moderado é uma daquelas contradições que demonstram o peso decisivo das emoções nas nossas escolhas fundamentais, como nos ensina António Damásio.

Assim, se o meu lado racional vê algumas vantagens na radicalização ou na polarização da sociedade portuguesa, na medida em que permite tornar as escolhas mais claras e os caminhos mais definidos, o meu lado moderado está mais sensível ao empobrecimento dos argumentos e à transformação dos debates na esfera pública em "berros de uma seita contra a outra", na recente e expedita definição de José Pacheco Pereira.

Mas também é verdade que, se o meu lado racional reconhece que há empresas produtivas e criadoras de valor em Portugal e que elas nos fazem falta, o meu lado emocional, ainda que moderado, afronta-se ao ver, com a exibição carnavalesca do conspícuo desfile dos devedores do Novo Banco, o espetáculo grotesco do carácter predador e dependente da elite económica e financeira portuguesa.

Sim, mesmo em alguém de pensamento radical e sentimento moderado, a emoção pode conduzir por vezes à radicalização e o pensamento à moderação. Joga aqui um outro fator, indispensável para não ficarmos amorfos ou completamente cínicos: a indignação moral.

Mas vejamos como a indignação moral pode ser seletiva: a indignação que alguns sentem com a prestação social atribuída aos ciganos ou com a requisição civil de uma empresa falida de praia, proprietária de algumas tábuas e detentora de muitas dívidas, não se estende depois à triste procissão de defuntos dos devedores do Novo Banco ou à lamentável procissão de miséria dos imigrantes explorados em Odemira. A moral para alguns nunca prevalece face aos interesses.

Não se deverá então o empobrecimento dos nossos debates à prevalência da emoção radical sobre o pensamento moderado? É que é mais fácil ser radical nas emoções, indignarmo-nos onde vemos ou supomos ver uma injustiça, do que deixar o pensamento moderar e matizar os nossos julgamentos, com o risco maior de vir a abrigar-nos na preguiça de uma mole indiferença ética. Mas se a razão, seguindo a lição de António Damásio, está sempre ligada à emoção, isso não significa de modo algum que ela deva ser serva das emoções, apenas que a sua autonomia não pode pensar-se como absoluta. O julgamento moral tem de ser rigoroso, mas não pode deixar de ser matizado. Se nunca podemos perder a faculdade de nos indignarmos, temos também sempre de saber racionalizar o movimento da nossa indignação.

Um recente livro de Jean Birnbaum, Éloge de la Nuance, vem reclamar para o pensamento de hoje algo que cada vez mais vemos faltar nos nossos debates: a ideia de matiz, de nuance, que nos permite não cairmos em julgamentos absolutos e sem contraditório, em que efetivamente os "berros de uma seita contra a outra" acabam sempre por substituir-se a qualquer argumentação. A nuance de Camus, de Barthes, de Hannah Arendt.

Camões, na sua Canção VII, lamentava ver a parte racional ser a um apetite submetida. Mas logo entende, no fim do pensamento, que era razão ser a Razão vencida. De razão e de emoção se fazem as nossas escolhas, da razão e da emoção nascem os nossos imperativos éticos. Não podemos deixar nenhuma delas fazer-nos esquecer a outra. Não podemos esquecer os matizes.

Diplomata e escritor

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