Em qualquer café ou banca de jornais lá estão elas, penduradas e cativantes, como que a acenar a quem passa. São as raspadinhas, o vício de tantas e tantas pessoas..O comportamento de jogo começa frequentemente como algo recreativo e social e, de forma progressiva, assume para muitos contornos de adição. De acordo com um estudo realizado em 2020, em média, cada português gasta 160 euros por ano em raspadinhas, dez vezes mais do que em Espanha..A dependência do jogo pode relacionar-se com diversos fatores, desde genéticos, familiares ou sociais, sendo difícil identificar uma relação simples de causa efeito. Para muitas pessoas, começa por funcionar como um escape de uma situação de sofrimento psicológico ou uma forma de aliviar o stress. Paradoxalmente, o próprio ato de jogar gera tensão e surge, então, uma espécie de ciclo vicioso, no qual a pessoa se sente presa e encurralada. Pode ser que seja agora que a sorte bata à porta. E raspa-se mais uma..Nas situações de dependência o pensamento foca-se exclusivamente no jogo e o comportamento torna-se obsessivo. A frustração e a ansiedade associadas ao facto de não ganharem são aliviadas apenas por mais raspar. E mais, e mais, e mais....Frequentemente surgem quadros ansiosos e depressivos e o vício acaba por ter um forte impacto negativo na vida familiar, profissional e social. Não apenas pelo dinheiro que é gasto e que, muitas vezes, não se tem, mas também pela mentira e isolamento que surgem como mecanismos defensivos. Porque os outros não percebem e criticam, esconde-se esta dependência das pessoas mais próximas. E quem joga diz para si mesmo que não existe problema algum, que não é assim tão grave e, ainda, que jogar é apenas uma forma de ajudar quem mais precisa, em claros processos de negação, minimização e racionalização..A família raspadinha, considerada já como a galinha dos ovos de ouro dos jogos santa casa, ganhou esta semana mais um elemento: a raspadinha do Património. E com uma moedinha de um euro apenas, vemos acenar um prémio máximo de 10 mil euros..Que o setor cultural e artístico precisam de ajuda, disso não subsistem dúvidas. No entanto, e atendendo à crescente dependência que se observa deste tipo de jogo e, acima de tudo, por pessoas com mais dificuldades económicas, temos dúvidas se será esta a melhor forma de o fazer..A dependência do jogo não tem o mesmo estigma negativo da dependência de substâncias, é verdade, mas não deixa de ser um problema igualmente prevalente, severo e difícil de reconhecer. Assim, mais do que alimentar a oferta de novas raspadinhas, parece premente investir em estratégias de intervenção junto das pessoas dependentes, por um lado, e também de prevenção primária, por outro, numa perspetiva de minimização dos fatores de risco. Porque a fronteira entre jogar como forma de divertimento ou como um ato obsessivo pode mesmo ser muito ténue e facilmente transposta.