Ramadão, soberania e reforma

O Ramadão teve um início quase consensual para a Ummah nesta terça-feira 13. Digo-o desta forma porque todos os anos há excepções, que na verdade têm pautado a regra pós-colonial.

A Arábia Saudita anunciou no pôr do Sol do dia 12 que a madrugada seguinte seria a que marcaria o início do Ramadão do ano 1442 da Hégira. Duas horas mais tarde, no pôr do Sol marroquino, o Ministério dos Assuntos Religiosos do reino confirma o que fora dito duas horas antes em Meca, a observação do crescente lunar marca o início do jejum para a quarta-feira 14. Porque é que isto acontece todos os anos?

Porque a religião sempre foi e sempre será um instrumento usado pelos estados para a afirmação das suas soberanias. Porque, no caso marroquino, trata-se de uma forma de fazer realçar um título informal, mas não menos importante do monarca Mohammed VI, o de Amir al-Mu"minin, "O Líder dos Crentes", uma medalha divina com um valor moral de Tânger a Bissau, de Lagouira a Bamako, a qual tem permitido alinhamentos regionais, subtilezas desconhecidas inter pares e mediações ainda menos públicas. De certa forma o rei de Marrocos ocupa agora o espaço vazio deixado por Muammar Kadhafi, que se estivesse vivo teria marcado o início deste mês sagrado, muito provavelmente para ontem, dia 15, na lógica da razão de Estado e da personalização do poder religioso.

Porque na Ummah, a nação islâmica, não existe Vaticano nem Papa e alinhar com a Arábia Saudita seria tacitamente estar a atribuir a Meca e ao seu Grande Imã estes títulos centralizadores de poder religioso, por oficioso que seja, perpetuando-se assim uma divisão na comunidade sunita que lhe tem proporcionado a "vibrância" da competitividade. Ou seja, este desalinhamento acaba no fundo por se tratar de mais um sunnat (ditos e feitos de Maomé) do Profeta, já que este também não definiu sucessor no seu leito de morte. Caso o tivesse feito, o islão não teria lutado pela sobrevivência através da expansão e da competição interna como o fez e hoje seria apenas mais uma religião e não a que mais se continua a expandir, acumulando também certamente o título de maioritária no planeta, apesar das estatísticas.

Este período vê também anualmente o surgimento de um debate que se quer secreto pela ala ortodoxa da Ummah, a qual acaba por ser maioritária quando em alguns sectores mais intelectuais e menos religiosos propõem uma uniformização do período de jejum para oito horas diárias, ao invés das 15 horas actuais em Portugal e mais noutros países, dependendo da geografia. Este debate reformista é evitado para não se levantar o precedente de se avançar para outros debates que possam escancarar a porta ao indesejado bid"ah, as inovações sempre combatidas pela ortodoxia vigente e hegemónica.

Quanto às 15 horas de jejum completo, que contempla uma abstenção completa de comida, bebida, tabaco e sexo, o que se torna interessante de observar para quem vive a intimidade das comunidades islâmicas durante este período, é confirmar o noor, o brilho, destes/as muçulmanos/as, que neste sacrifício individual e colectivo brilha ainda mais alto, tornando-os ainda mais fortes e unidos na adversidade e na fé!

Com votos de Ramadan Moubarak - Ramadão abençoado a todos/as.

Politólogo/arabista.
www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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