Raisparta, tanta falta de decoro

Há uma evidente falta de decoro na forma como o poder socialista nos esfrega na cara a impunidade com que gere o dinheiro dos contribuintes. Para quem toda a espécie de populismo faz igualmente urticária, ter de comentar os casos que se sucedem causa grande desconforto. Só que calar não é opção, mais vale passar por populista. Na simplicidade possível, a descrição de apenas dois dos casos permite que cada um tire as suas conclusões.

No primeiro caso, trata-se da contratação de Ana Cristina Chéu, mulher do secretário de Estado das Infraestruturas, para consultora jurídica do Conselho de Administração da Autoridade de Mobilidade e Transportes, entidade presidida pela ex-ministra Ana Paula Vitorino:
a) Uma cidadã foi contratada como consultora de uma entidade reguladora;
b) A entidade reguladora cai na alçada do trabalho do seu marido;
c) A mesma entidade é presidida por uma ex-ministra do partido do governo;
d) O lugar foi conseguido por concurso com um júri presidido pela presidente da entidade;
e) A cidadã contratada foi chefe de gabinete da ex-ministra.

O segundo, é um típico caso pantanoso, em que os intervenientes quanto mais fazem para tentar resolver o assunto mais se afundam. É sobre o famosíssimo Centro de Exposições Transfronteiriço de Caminha, que nunca existiu nem vai existir. Convém lembrar que não foi por causa deste inacreditável negócio que Miguel Alves foi obrigado a deixar o gabinete do primeiro-ministro:
a) O presidente de uma autarquia adiantou 300 mil euros de renda a um empresário que prometeu construir um pavilhão e arrendá-lo a essa autarquia, ficando a manutenção a cargo do arrendatário;
b) O autarca defendeu a idoneidade profissional do promotor, que se veio a revelar ter dificuldades de relação com a verdade;
c) A autarquia - já com o presidente substituto - anulou o contrato de arrendamento do pavilhão, que nunca existiu, e pede a devolução dos 300 mil euros, por incumprimento do promotor;
d) O novo presidente mandou pagar quase 20 mil euros a um escritório de advogados para que seja emitido um parecer sobre a legalidade do contrato promessa de arrendamento que, entretanto, já tinha sido denunciado.

A falta de decoro é tão grande que mal se compreende que o principal partido da oposição não dê o devido destaque a estes assuntos. Sabemos que tem telhados de vidro, sabemos que no exercício do poder fizeram muitas vezes de igual forma. Mas só se não tiverem receio do que podem dizer, agora é que serão capazes de convencer os eleitores de que, por mais esqueletos que tenham no armário, não farão igual no futuro.

Não estranhem que o Chega vá afirmando o seu potencial de crescimento. Ventura aproveita a boleia e cola o PSD ao PS, enquanto o PSD tenta libertar-se do taticismo socialista que, no combate político, privilegia o Chega. É também com falta de decoro que o PSD ziguezagueia na relação com a extrema-direita, cada vez mais convencido de que vai precisar dela para regressar ao poder.

Jornalista

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