Racismo, machismo, eurocentrismo e a idolatria de Darwin

Nos últimos meses, um evento crucial está a ocorrer nas áreas da biologia evolutiva e da antropologia biológica. Por exemplo, num capítulo publicado num livro que inclui vários cientistas internacionalmente reconhecidos - A most interesting problem - e posteriormente num editorial recente de uma importante revista científica, Science, o antropólogo Agustin Fuentes afirmou que as obras de Darwin, em particular o seu livro The Descent of Man, incluíram várias afirmações etnocêntricas, racistas e machistas. Este é um facto inequívoco que todos podem confirmar: o livro está disponível gratuitamente, na internet. O que é particularmente revelador e crucial, ainda mais do que aquelas duas publicações de Fuentes, é a reacção severa de numerosos cientistas a essas publicações. Em particular, por vários cientistas ocidentais, incluindo alguns muito proeminentes, que muitas vezes tentam retratar Fuentes como um radical e/ou um pária dentro da comunidade científica. Esta é uma estratégia típica usada contra cientistas que questionam a idolatria quase religiosa de Darwin. Na verdade, essa estratégia confirma, em si, o que Browne, que conhece as obras de Darwin e seu contexto mais profundamente do que quase ninguém, reconheceu no seu livro Darwin Voyaging: "[Na sociedade vitoriana] as ideias científicas e a fama científica não vieram automaticamente para as pessoas que trabalharam duro e colectaram insetos... um amor pela história natural não poderia, por si só, levar uma governanta ou um operário ao topo da árvore intelectual do século XIX.. nem pode, por si só, explicar Darwin".

Como ela também explicou em Power of Place, a idolatria de Darwin não ocorreu apesar das suas ideias etnocêntricas e racistas e do seu apoio ao colonialismo e ao imperialismo - embora ele se opusesse à escravidão, seguindo a tradição da sua família -, mas em grande parte precisamente por causa disso. Certamente não é por acaso que, além da Origin of Species, são precisamente os livros de Darwin sobre os humanos - Descent, 1871, e Expression, 1872 - que hoje são tão comemorados pelos estudiosos ocidentais, como está a acontecer agora com o 150.º aniversário do Descent, em 2021. Não houve grandes comemorações do 150.º aniversário dos seus livros sobre corais ou ilhas vulcânicas, por exemplo. Desmond e Moore, que também estão entre os autores que estudaram a vida e a obra de Darwin com mais detalhe, também explicam isto, quando enfatizam que Darwin teve um funeral de Estado na Abadia de Westminster, um símbolo emblemático do poder inglês, onde inúmeras coroações e casamentos reais e funerais aconteceram. Nesse funeral, Darwin foi comemorado pela nata da sociedade vitoriana como o símbolo do "sucesso inglês em conquistar a natureza e civilizar o globo durante o longo reinado da rainha Vitoria". Na verdade, o que é particularmente notável sobre aqueles que têm uma reverência quase religiosa por Darwin é que muitos deles nem sequer leram o seu livro The Descent e/ou não sabem que os historiadores que sabem mais sobre Darwin reconhecem que suas obras incluem várias ideias etnocêntricas, racistas e machistas.

Como esses historiadores observam, o problema não é apenas que Darwin escreveu coisas como as seguintes, como se fossem factos científicos - o que, claramente, não é verdade - , a respeito de seus encontros com não europeus como os habitantes da Tierra del Fuego: "Eu não teria antecipado como é a diferença entre selvagens e o homem civilizado. É maior do que entre um animal selvagem e domesticado, na medida em que no homem há maior poder de melhoria... as suas próprias atitudes eram nojentas, e a expressão desconfiada.. a sua linguagem não merece ser chamada articulada. Acredito que se o mundo fosse investigado em detalhe, nenhum humano inferior a este poderia ser encontrado". O maior problema é que ele construiu repetidamente este tipo de "factos" evolutivos completamente falsos para apoiar as suas próprias preconcebidas crenças etnocêntricas e racistas: Darwin era um biólogo com excelentes habilidades de observação, mas como antropólogo muitas vezes ficava cego por seus preconceitos. Por exemplo, ao escrever falsidades como que as mulheres são mentalmente inferiores e que os habitantes da Tierra del Fuego eram "moralmente inferiores" e canibais, ele não estava sequer a ser um cientista: estava simplesmente a escrever as ideias preconcebidas que levou para a sua viagem no Beagle, em vez de realmente observar o que estava diante de seus olhos durante essa viagem. Como escreveu George Orwell: "para ver o que está na frente do nariz é preciso lutar constantemente". Infelizmente, Darwin muitas vezes nem sequer tentou, ou se tentou claramente não foi bem sucedido nessa luta, quando o objeto de estudo era sua própria espécie.

Isso é irónico, porque Darwin tem sido frequentemente usado como um símbolo não apenas da "vitória" dos europeus e da sua "civilização", mas também do seu conhecimento e ciência, em contraste com as crenças "irracionais". Aqueles que se percebem como vencedores nesta "dupla" vitória são, de fato, aqueles que tanto temem qualquer crítica ao seu ídolo, pois a percebem como uma crítica a si próprios. Isso é claramente visível numa recente carta electrónica para um o mesmo importante jornal científico - Science - escrita por 12 cientistas - vários deles sendo particularmente conhecidos - na qual eles reagiram às declarações de Fuentes usando o seu Power of Place e afirmando coisas como: "nós tememos que a exposição injuriosa de Fuentes vai encorajar um espectro de vozes anti-evolução". Ou seja, de acordo com essa lógica, para não deixar outros defenderem o seu Deus omnisciente e moralmente perfeito (os criacionistas), ou para não "perder" pessoas para a causa eles, nós cientistas devemos a criar e defender cegamente a nossa própria divindade omnisciente e perfeita: Darwin. Os cientistas não devem ter medo dos factos: que os livros de Darwin incluam ideias racistas e machistas é um facto inequívoco que não tem nada a ver com - ou ser censurado por medo aos - criacionistas ou ao seu Deus.

Outra linha típica de defesa usada contra qualquer crítica a Darwin é que as suas ideias racistas e sexistas não eram realmente o produto de sua mente, mas da "sua época", como se Darwin fosse um autómato obrigado a ter tais ideias e a escrevê-las nos seus livros científicos como se fossem factos reais. Como nas narrativas religiosas sobre Deus e o Diabo, as "boas" ideias eram produto do "génio único" de Darwin; os "mas" eram obviamente exclusivamente culpa da "sua sociedade". Este é um argumento totalmente falso: como brilhantemente colocado por Marguerite Yourcenar, "em todos os momentos há pessoas que não pensam como os outros... isto é, que não pensam como aqueles que não pensam". Se não fosse assim, nunca haveria mudanças sociais. Um exemplo emblemático disso é Alfred Russel Wallace, que viveu na mesma época e país que Darwin e, ao contrário de Darwin, muitas vezes elogiou os povos indígenas que encontrou nas suas viagens, condenou abertamente as hierarquias colonialistas e o imperialismo ocidental e geralmente se definiu como um "feminista".

O exemplo de Wallace reforça o ponto de Browne, feito acima: também um naturalista, ele desenvolveu uma teoria semelhante da evolução por seleção natural - na verdade, ele terminou de escrever o seu manuscrito sobre ela em 1858, um ano antes de Darwin o fazer -, mas hoje não existe Wallacismo nem uma tal idolatria quase religiosa por Wallace. Como costuma acontecer na sociedade, na ciência a meritocracia não é tudo, e muitas vezes nem é o mais importante. Qualquer tipo de idolatria envolve sempre a negação: portanto, é hora de discutir esses temas, de uma vez por todas, sem tabus, omissões, idolatria, demonização ou medo dos "outros" e dos seus deuses. Somos cientistas, e se não fizermos isso e apenas continuarmos a idealizar cegamente o passado e idolatrar livros racistas e machistas como o Descent, os nossos filhos e netos serão condenados a perpetuar as mesmas crenças etnocêntricas, racistas e machistas defendidas nesses livros e, portanto, provavelmente continuarão a cometer ou sofrer os mesmos abusos sociais, no futuro.

Antropólogo e Biólogo; Professor Associado, Howard University

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