Querida, mudei o aeroporto

1 Quando se trata de saber o que andam a fazer os lobbies e onde querem chegar, devemos dar a máxima atenção ao Expresso Economia. E esta sexta já lá estava a notícia, preto no branco. Alcochete. Voilá. Quem decidiu? Não foi Costa, nem Montenegro, nem Rio, nem Moedas, nem o Parlamento ou o governo como um todo... Tal como na Expo"97 da Herman Enciclopédia, quem decidiu foi... o engenheiro.

Qual engenheiro? O "engenheiro" português é uma instituição poderosa, esteja ele no Instituto Superior Técnico, no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) ou, tão só, na Ordem dos Engenheiros - incluindo o maior deles - o (novo) bastonário. Todos parecem defender Alcochete.

Diríamos que está decidido. A Academia dos Engenheiros decidiu. É um assunto para quem percebe de aeroportos. O "engenheiro", essa entidade que lida com o sentido prático das coisas, torna real o negócio. Os engenheiros dizem - e faz-se. Como se um aeroporto fosse um ponto meramente Técnico, sem nada mais em redor.

Alcochete, quando? Recuemos. Durão Barroso, 2003. Dizia o então primeiro-ministro: "Não será construído nenhum aeroporto enquanto houver crianças de três anos à espera de serem operadas". Vinte anos depois... até para nascerem, têm de esperar. A situação não melhorou. Quer isto dizer que a ideia de investirmos oito mil milhões em Alcochete, num contexto de taxas de juro crescentes e endividamento português estratosférico (top-5 mundial per capita) é... como dizer... uma loucura? Não. Uma pechincha. O Dinheiro Vivo recentemente demonstrou um custo bem superior: 10 mil milhões só para indemnizar a Vinci + 8 mil milhões para o aeroporto (+ derrapagens... o ponto fraco dos engenheiros).

Em duas décadas, Lisboa poderá mesmo ser a única grande capital da Europa com esse trunfo de conveniência: aeroporto perto dos habitantes, de acesso fácil por metro, numa cidade melhor preservada através da definição do limite de visitantes.

Mas Portugal não necessita de um aeroporto digno na capital? A resposta é, evidentemente, sim. Por isso a Vinci foi obrigada a planear 650 milhões de euros para a Portela. Porque ela não é irreformável e três razões são decisivas para a sua continuação.

A primeira: não há melhor localização para a dinâmica turística e de negócios. Segunda: Lisboa não tem capacidade para ainda mais turistas no pico da procura. Terceira: há alternativas fora de Lisboa (Beja e Monte Real), que ninguém quer discutir porque não há milhões em jogo.

Imaginemos que Durão Barroso tinha avançado em 2002 com o aeroporto - em Rio Frio, como na altura era moda. A Grande Lisboa seria hoje uma cidade melhor? Já se olhou para o que aconteceu, por exemplo, no Sul de Espanha? Esta vertigem do turismo a todo o custo destruiu a paisagem natural e criou monstros de betão em cidades e vilas que são a antítese do que será o turismo do futuro. Para quê uma Margem Sul assim? Entretanto: a Portela só rebenta realmente em picos de procura. Ora, Lisboa encaixaria quantos mais turistas oriundos de Alcochete, nesses picos?

Além disso, o custo de um aeroporto desta dimensão só pode ser pago por uma de duas vias. Ou pelos contribuintes; ou por taxas aeroportuárias ainda mais caras. Afinal, queremos mais e melhor turismo, mas corremos o risco de ficar com Lisboa menos competitiva - e sobretudo caríssima para os portugueses que precisam de um avião e não podem ir apanhá-lo a Madrid.

Fazer hoje um grande aeroporto, numa era anti-carbono - sem se pensar nos novos modelos de aviões projetados para mudar a forma de viajarmos, novas formas de aterragem, menos ruído e poluição, etc. -, é investir tudo o que temos para concentrar num só local o que pode ser distribuído por Beja e Monte Real. Ainda por cima, Alcochete está a 50 quilómetros do centro da capital. Parece o contrário do que o futuro mostra.

Claro, só teremos a tal alternativa menos carbónica se a Portela não for transformada em mais um parque imobiliário. Em duas décadas, Lisboa poderá mesmo ser a única grande capital da Europa com esse trunfo de conveniência: aeroporto perto dos habitantes, de acesso fácil por metro, numa cidade melhor preservada através da definição do limite de visitantes. Menos é mais. Infelizmente, para se chegar lá, é preciso políticos com coragem para não lançar obra nova.

2 A decisão do Supremo Tribunal norte-americano é apenas mais uma agressão da América branca e rica contra a pobreza e o que ela significa. Nenhuma pessoa com dinheiro é atingida pela definição do mundo idílico que está na cabeça dos seis juízes conservadores. Se fossem os homens a ter filhos isto jamais aconteceria. Hoje a revolta estaria na rua.

Jornalista

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