Queremos voltar atrás?

Temos vivido os últimos dias na incerteza do rumo do país face ao desconfinamento e à evolução da pandemia. Há algumas semanas, os indicadores pareciam garantir uma evolução de sentido único, com cada vez menos doentes, óbitos e doentes graves. Entre os idosos já vacinados, a pandemia passou a ter uma expressão irrelevante. Foram aumentando os que contribuíram para a diminuição do confinamento.
A abertura dos estabelecimentos comerciais, a retoma da restauração e da hotelaria, o aumento dos movimentos de pessoas, quer em trabalho quer em lazer, dão outro ânimo aos diversos setores. Em suma, podemos dizer que há dias tudo parecia encaminhado para a nova normalidade tão aguardada por todos.

Infelizmente, conforme o tempo passa, percebemos que a ansiedade generalizada pela procura desse "normal", aliada a alguma irresponsabilidade, está a levar a um aumento dos casos diários, que se manifesta no crescimento do número de internados e, fundamentalmente, do número de internados em cuidados intensivos, numa evolução que faz temer uma nova vaga da doença.

Podendo os cientistas e os dados concretos justificar uma análise diversa daquela que fazemos, aos olhos do cidadão comum o que parece é que este crescimento é motivado pela necessidade que os territórios e as forças políticas que os controlam têm de mostrar serviço, no âmbito de uma pré-campanha autárquica que há muito começou. O número de eventos culturais e desportivos com público aumentou, e mesmo os que são sem público arrastam "multidões" que querem ver e sentir, mesmo por fora, os acontecimentos e, num mês de arranque do verão e de comemoração das festas de santos populares, com facilidade se enchem praias e praças de pessoas.

Algumas destas enchentes acontecem de forma esporádica, com as pessoas a convergirem a título individual para os locais onde se realizam. Outras são organizadas por organismos privados ou públicos, nomeadamente as autarquias, no âmbito do que as leis e as normas determinam, ainda que nem sempre no escrupuloso cumprimento das mesmas, por ser quase impossível.

Imagens de praias cheias (em junho) prenunciam praias muito cheias em agosto. E, quanto a festas e arraiais, também parece óbvio que a tendência é para o seu aumento ao longo do verão, principalmente agora que está legitimado que se lhe chamarmos encontro político podemos fazê-lo, deixando a sua promoção e organização a uma qualquer força política. Se em setembro de 2020 já tínhamos a indicação de que era possível fazer festivais, agora sabemos que é possível fazer arraiais.

Voltando à pandemia e à sua evolução, parece-nos que, por mais que a maioria da população se controle e se "comporte", haverá sempre uma quantidade de organizações com falta de ética e de respeito pelos outros que, em nome da retoma económica, continuarão a colocar em causa a saúde de todos e o acesso, tão desejado, à vida sem constrangimentos que ansiamos.

Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

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