Quem vai controlar o Estado inteligente?

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A recente aprovação da Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA) foi apresentada com euforia política, como um passo decisivo para modernizar o Estado Português. Em contrapartida, prepara-se o novo Plano Nacional de Administração Aberta (PNAA), ainda sem demonstração clara de apoio político ou compromisso institucional firme. Este desfasamento não é apenas administrativo, é um sinal de alerta, pois a tecnologia avança mais depressa do que a reflexão democrática sobre os seus impactos.

O discurso oficial insiste na eficiência, na automação e na racionalização dos serviços públicos, mas o Estado não é um sistema técnico neutro, é uma instituição que sustenta direitos, justiça, confiança e coesão social. Quando a Inteligência Artificial passa a intervir em decisões públicas, entra num território ético e político. Ignorar isto é abrir a porta à erosão silenciosa das próprias bases da democracia.

O recente estudo Como a IA Destrói as Instituições, da Universidade de Boston, refere que a IA pode degradar as competências, fragilizar a tomada de decisão e enfraquecer os laços sociais que mantêm as instituições vivas. Quando o julgamento humano é substituído por sistemas automatizados, perde-se o contexto, a responsabilidade e a sensibilidade social. O que se ganha em velocidade, perde-se em justiça.

Para os cidadãos, a eficiência não substitui a equidade, pois um processo mais rápido não é por definição mais justo e uma decisão automatizada não é necessariamente mais correta. A Administração Pública existe para lidar com situações complexas, onde a singularidade das pessoas importa. Por isso, transformar cidadãos em perfis de dados e direitos em probabilidades estatísticas é um caminho perigoso.

A ANIA aposta fortemente na IA como motor de modernização do Estado, enquanto o PNAA, ainda em preparação e sem apoio político visível, promete transparência e participação. Contudo, na prática a transformação digital continua centrada na máquina administrativa e não na relação com a sociedade civil. O risco é ter um Estado mais eficiente, mas mais distante, e mais rápido, mas menos compreensível.

A opacidade dos sistemas de IA agrava este problema. Quando um algoritmo recusa um apoio social, atrasa um licenciamento ou prioriza um processo, quem responde, quem explica e quem assume a responsabilidade? Sem transparência, o direito à contestação enfraquece, e sem explicação a confiança desaparece.

A reforma tecnológica pressupõe cidadãos com acesso, com literacia e com confiança nos sistemas online, sobretudo porque muitas pessoas continuam dependentes do contacto humano. Para idosos, pessoas com baixa escolaridade ou comunidades vulneráveis, a automação pode significar afastamento dos serviços públicos e exclusão social.

O estudo de Boston alerta também para a erosão dos laços sociais, pois as instituições não sobrevivem apenas com eficiência técnica, precisam também de confiança, proximidade e interação humana. Quando a tecnologia isola e despersonaliza, mina o capital social que sustenta a democracia.

A sociedade civil não rejeita a inovação. Exige-a com responsabilidade, supervisão humana, transparência, participação e controlo democrático. A reforma do Estado não pode ser apenas tecnológica, tem de ser política, social e ética.

Se a IA for usada sem debate público e sem envolvimento dos cidadãos, o risco é termos um Estado mais automatizado, mas menos democrático, mais inteligente em termos técnicos, mas mais frágil em termos institucionais.

A questão já não é se o Estado vai usar ou não Inteligência Artificial, mas se vai fazê-lo sem destruir pelo caminho aquilo que o torna legítimo, como a justiça, a confiança e a relação com os cidadãos. Esse é um risco que não pode ser tratado como um simples detalhe técnico.

Especialista em governação eletrónica

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