Quem quer ser professor?

Novo ano escolar, problemas velhos: quase 60 mil alunos ainda estão sem professor a pelo menos uma disciplina. E este défice repetente pode até agravar-se quando se sabe que, até final da década, farão falta 34 mil professores para satisfazer as necessidades das escolas públicas. Trata-se de uma população envelhecida - com uma média de idades acima dos 50 - que, lentamente, tem abandonado a carreira, após uma vida profissional muitas vezes em situação de amarga e angustiante precaridade. Antecipo, porém, que a minha declaração de rendimentos, para efeitos de IRS, inclui a pensão de uma professora reformada, razão pela qual me sinto autorizado a afiançar, citando o saudoso Jô Soares, que "o material escolar mais barato que existe na praça é o professor".

Já lá vai o tempo dos mestres, gente com palavra autorizada, muitas vezes para além dos limites da sala de aulas. Os pais confiavam neles, a sociedade valorizava-os e respeitava-os. A própria palavra mestre, que significava um grau superior de conhecimento e sabedoria para poder transmiti-los a outros, foi-se desvalorizando, a ponto de hoje preferirmos substituí-la no jargão académico por outras palavras como professor, docente ou pedagogo. Todas elas para pouparmos no uso de uma palavra prestigiosa e benquista de outro tempo, cheia de beleza etimológica, mas que cedeu à deterioração pública arrastada pelos profissionais da educação.

Ser professor deixou de ser atrativo. Depois de um tempo em que os salários e o estatuto social de um professor eram comparáveis aos de um capitão do exército, hoje não vão além de sargento ou até mesmo furriel. Isto, para além da instabilidade que os espera em início de carreira, quando a procura de colocação os condena ao nomadismo, calcorreando o país, com a casa às costas.

Em quase cinco décadas de democracia, é difícil descortinar um ano que não tenha conhecido instabilidade nas escolas, em particular no começo de cada ano letivo. Entre governos, partidos, sindicatos e outras corporações, se algo tem sido prejudicial é o ziguezague das diferentes políticas, mais tentadas a impor um modelo ou agenda próprios que orientar a atividade educativa durante largos períodos de tempo, muito mais dilatados que os ciclos eleitorais. E, entretanto, a "instrução pública" continua doente, reproduz desigualdades sociais, assimetrias regionais. A decisão, agora, de reduzir o centralismo do Ministério da Educação e transferir para as escolas competências na contratação de professores, parece vir na direção certa. Mas é no regateio desta e doutras mercearias que andamos há anos, um biombo de interesses que secundarizam o essencial: a importância decisiva da educação para o futuro do país. Porque não há ferramenta mais eficaz para garantir a cidadania e a mobilidade social, reduzir as desigualdades e fermentar competitividade na economia.

É urgente um pacto nacional pela educação. Uma reforma não tem de estar sujeita a mudanças drásticas, embora deva acompanhar a evolução social e tecnológica. Um grande acordo na área educativa, que envolva todos os parceiros, deveria garantir estabilidade e ter em conta que as famílias e o contexto socioeconómico são elementos essenciais do sistema. Mas é indispensável resgatar o ânimo e o orgulho dos professores, cada vez com mais responsabilidades e menos estímulos, num tempo em que a função do Estado é também assegurar-lhes mais formação, treino, experiência e metodologia adequados. Sem esquecer, claro, a exigência de contrapartidas em avaliação. "A verdadeira generosidade que temos para com o futuro está em dar tudo ao presente" - palavra de um mestre. Um pacto nacional pela educação tem de valorizar a função docente e aqueles a quem, durante muitas horas do dia, confiamos os nossos filhos.

Jornalista

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